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Delírios Gráficos de Luiz Insekto
Os quadrinhos poser dos anos 90, por Rogério Baldino


Delírios Gráficos de Luiz Insekto

Por Luiz Insekto



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Image Comics e os quadrinhos poser dos anos 90

por Rogério Baldino

Hair metal. Metal farofa. O poser é até hoje conhecido como a mais infame variante do Heavy Metal. Bandas como Poison , Venom, Motley Crue, Wasp e tantas outras criaram um estilo que dominou boa parte dos anos 80 e priorizava o visual afetado. Grandes penteados (geralmente loiros), calças de couro apertadas, maquiagem pesada, pose de mau com direito a “biquinho” e praticamente nenhum conteúdo.

Muita gente não sabe, mas na década passada, os quadrinhos americanos também já tiveram sua parcela de poser. Não, não se trata de HQ's baseadas nas bandas citadas acima.

Estou falando das revistas de super-heróis que priorizavam personagens com “atitude”: heróis com cara de mau, fazendo pose com armas gigantes e lâminas afiadas, dentes cerrados e algum membro biônico. Sem contar o talho ou cicatriz no rosto. Uma praga que se espalhou pelas editoras americanas, quase acabou com o mercado de HQ's e teve como maior representante uma editora chamada Image.

Tudo começou nos anos 80 com a revolução cultural causada por Watchmen de Alan Moore & Dave Gibbons e Dark Knight Returns de Frank Miller. Clássicos indiscutíveis que mudaram o panorama do mercado de HQs para sempre. Estas duas obras-primas marcaram época por introduzirem o conceito de quadrinho para adultos com histórias sombrias, violentas, visual arrojado e com forte crítica social.

Mas Watchmen e o Dark Knight Returns também foram responsáveis involuntários por uma onda que começou a surgir no fim dos anos 80: Os quadrinhos grim & grity (algo como “escuro/sombrio” e “perigoso/mau”). Uma nova geração de artistas de menor calibre surgiu após o sucesso comercial destes clássicos: Rob Liefeld, Todd McFarlane, Jim Lee, Eric Larsen, Marc Silvestri entre outros.

Todos estes artistas eram as maiores estrelas da Marvel Comics no fim da década de 80 e trabalhavam nas maiores franquias da Casa de Idéias: Spider-man e X-men. As revistas da Marvel vendiam como água. Principalmente por trazer, na capa, heróis cada vez mais sombrios e violentos. Os leitores pareciam querer cada vez mais.

Os editores, felizes da vida com as vendas espetaculares, não estavam muito preocupados em aprofundar qualquer temática social e não entenderam a mensagem de Moore e Miller. Idéias mais profundas foram deixadas para trás em prol do visual hardcore e da violência gratuita.

Quem não estava muito satisfeito era Liefeld, McFarlane e cia, que não detinham os direitos dos personagens em que trabalhavam e tinham que se contentar com a mera condição de assalariados enquanto a Marvel enchia os bolsos.

Cansados desta situação, eles resolveram, um a um, sair da Marvel e juntos, fundaram a Image Comics. O problema é que nenhum destes caras nunca foi nem nunca vai ser um Alan Moore ou um Frank Miller.

Se, no início dos anos 90, a Image Comics prometia uma revolução nas HQs americanas, o que se viu a seguir foi o início de uma crise que quase liquidou com o mercado de quadrinhos de super-heróis nos EUA.

1) A Image lançou uma avalanche de títulos de qualidade duvidosa em que a arte (muitas vezes ruim) prevalecia sobre a história. Capas e mais capas de anti-heróis com caras raivosas, empunhando armas em meio a um banho de sangue. Liefeld, McFarlane, Lee, Silvestri, Larsen (e outros menos cotados) nunca conseguiram sair da sombra criativa da Marvel. Todos os heróis são, de alguma forma, filhos bastardos do Wolverine.

Veja só: Spawn não passa de uma cruza entre Batman, Motoqueiro Fantasma e Deathlok. Yougblood, WildCats e CyberForce não passam de cópias descaradas dos X-men. Savage Dragon é um misto de Justiceiro com Hulk. E por aí vai.


2) Sem a obrigação de entregar os desenhos no prazo marcado, como acontecia na Marvel, os novos sócios (agora patrões de si mesmos) começaram a atrasar de forma absurda a entrega das revistas nas bancas e lojas especializadas. A Image começou a rapidamente perder credibilidade entre leitores e editoras concorrentes.


3)Mesmo editoras estabelecidas como Marvel e DC entraram na onda da Image e acharam que as HQ's poser eram o futuro. A DC passou a usar o artifício de lances de marketing para promover seus maiores personagens: Superman morreu, ressuscitou, casou, se separou em dois, etc. Batman foi transformado numa espécie de Justiceiro, com uma armadura high-tech. A Marvel, amargando a saída de suas maiores estrelas, fez o caminho inverso e começou a imitar o estilo e o visual das revistas de Lee, Liefeld, McFarlane e cia. A Marvel imitava a Image que imitava a Marvel. O resultado foi uma infinidade de revistas e séries clássicas (fantastic four, spider-man, etc...) com péssima ou nenhuma qualidade de conteúdo.

4) Logicamente, o resultado se refletiu nas vendas. Séries de sucesso no passado amargaram vendas pífias e no meio da década de 90, o mercado americano de quadrinhos entrou numa profunda recessão que quase fechou as portas da Marvel.

O mercado de HQ's nos EUA sempre viveu crises localizadas. Várias são as causas. No passado eram poucas e mal-afamadas as lojas de gibis. Na proporção, os EUA têm menos leitores que o Brasil, mas os americanos sofrem de um mal até hoje inédito no nosso país: a especulação de gibis. Nos EUA tem gente que vive de comprar e revender gibis por preços absurdos. Tiragens enormes são compradas pelo mesmo especulador, que queima a maioria para valorizar as cópias restantes. Nos anos 90, esta crise chegou a patamares alarmantes.


5) Os primeiros títulos da Image tiveram tiragens gigantescas (na casa de milhões), mas logo se descobriu que só uma porcentagem destas revistas chegava aos leitores. A maioria ficava nas mãos de especuladores. Tal notícia derrubou as ações de companhias como a Image e a Marvel na bolsa de valores.

6) Eventualmente, o choque de egos entre os fundadores da Image foi inevitável e o grupo de artistas que iniciou a editora se separou e poucos permaneceram na companhia.

Se na música, Nirvana e as bandas grunge liquidaram com o hair metal, nos quadrinhos aconteceu algo similar. As HQ's poser da Image também tiveram seus algozes.

O primeiro deles foi o nicho representado pelo selo Vertigo da DC, que resistiu bravamente nos anos 90 em meio à euforia do sucesso inicial da Image. Títulos como Hellblazer e Preacher representaram um oásis no deserto de idéias das HQ's poser.

Outro título de destaque que marcou o início do fim da era Image e o retorno às raízes da Marvel Comics foi a mini-série Marvels. Dali surgiu o nome de um artista que, em pouco tempo, sobrepujou Liefeld e cia. em matéria de popularidade: Alex Ross.

Mas talvez, o fator mais determinante para o início de um novo capítulo na história das HQ's de super-heróis foi a “invasão britânica” de novos artistas como Garth Ennis, Warren Ellis, Grant Morrison, James Robinson, Mark Millar, Brian Hitch e outros.

Do grupo de fundadores da Image Comics, só ficaram Todd McFarlane, Marc Silvestri, Jim Valentino e Eric Larsen. McFarlane não desenha há anos e está mais interessado na sua linha de action figures. Silvestri mantém um estúdio independente (Topcow) com títulos de pouca relevância como WitchBlade e Darkness. Larsen é o único que continua a desenhar seu próprio título: Savage Dragon.

Jim Lee, depois de sair da Image e vender seu estúdio para a DC, voltou a trabalhar para as grandes editoras. Atualmente desenha a maxi-série All Star Batman para a DC Comics.

Rob Liefeld, o guru dos quadrinhos poser, vive numa espécie de exílio das HQ's.

Praticamente expulso da Image devido à falta de caráter, e ego em excesso, Liefeld nunca mais conseguiu se firmar pelos próprios pés. Eventualmente é convidado para desenhar alguma capa ou mini-série, para o terror dos apreciadores da 9ª arte.

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