Kleinert e sua relação de amor e ódio com os anos 80
Steve Albini: A Gênese do Barulho
Relação de amor e ódio dos anos 80
por André Kleinert
Uma das fontes mais certas de lucros para os promotores de festas aqui em Porto Alegre é organizar uma noite anos 80. É batata: vai entupir de gente, com uma fauna até bem variada, desde de trintões nostálgicos até um pessoal mais jovem com saudades de não se sabe bem o quê ou apenas a fim de dançar os hits daquela “época dourada”. E é nessas horas que eu me pergunto: afinal, aquela época era tão legal mesmo??
Comecei a ouvir música com mais atenção, com aquela coisa de ficar colecionando discos e lendo sobre assunto, na minha adolescência, em pleno anos 80. Era uma época complicada: o acesso aos discos e à informação era bem mais difícil, aliado ao fato de quando a gente está nessa idade a grana não costuma ser muito presente no nosso bolso. Dessa forma, a música para mim acabou adquirindo um certo status de mistério. Não se sabia quando determinada banda lançaria um disco (e quando era lançado, era como se tivesse surgido do nada), pouco se sabia sobre os músicos, determinados álbuns eram muito comentados e pouco ouvidos. É claro que essa aura de mistério pode ter até um certo charme, mas confesso que atualmente a Internet e o fato de eu não ser mais um adolescente durango kid (bem, eu sou um adulto durango kid, mas porque gasto boa parte do salário em discos e gibis) faz com que a minha vida de fissurado por rock seja mais divertida....
Mas voltando às minhas digressões memorialistas, mesmo com todas as dificuldades que mencionei acima, foi nos anos 80 que comecei a desenvolver o meu gosto musical de uma forma mais sistemática. E realmente foi um período que propiciava aos jovens uma quantidade considerável de coisas excelentes para ouvir em termos de rock e pop. É só lembrar que foi em tal década que tivemos o apogeu de gente como Smiths, Echo And The Bunnymen, Cure, Pixies, Prince, Michael Jackson, Madonna, New Order, Pet Shop Boys, Depeche Mode, Iron Maiden, e isso só para ficar nos nomes mais conhecidos.

É importante lembrar, contudo, que ao mesmo tempo em que havia toda essa gente fazendo um trabalho de alta qualidade, havia também muita porcaria, e bota porcaria nisso. Muito se reclama atualmente do funk carioca, pagode e breganejo dominarem as rádios, mas sou obrigado a confessar que na minha opinião no quesito canções constrangedoramente ruins os anos 80 foram insuperáveis. Era tenebroso ligar o rádio e ouvir Yahoo, Mr. Mister, Chris De Burgh, Uns e Outros, Afrodite Se Quiser, Rosana, Whitney Houston, Menudo, Dr. Silvana. E era isso que realmente dominava as rádios. A única que dava para escutar era a Ipanema FM (que, por sinal, tinha uma programação bem mais diversificada e menos óbvia que atualmente).
E é aí que reside uma das maiores contradições dos anos 80 em termos de música: por mais que se fale atualmente em New Order, Smiths, Cure ou outros nessa linha, a verdade é que na época pouca gente realmente ouvia isso. O que predominava nas rádios ou nas festas eram as coisas ruins que eu mencionei acima ou um rock/pop asséptico e sem personalidade de gente como Legião Urbana, Engenheiros do Hawaí, Titãs, Dire Straits, Sigue Sigue Sputnik, A-Ha.
O rock brasileiro oitentista, por sinal, é marcado por paradoxos. Ouvindo-se atualmente o que foi produzido no gênero durante aquele período, a impressão é que boa parte dos discos não envelheceu muito bem, não só devido ao nível das composições, mas principalmente em relação a quesitos como timbres, arranjos, mixagem. As guitarras tinham um som magrinho demais, sem peso, utilizava-se teclados que uniformizavam os arranjos de forma irritante, arranjos de pouca variação. O fato de termos um público que ainda carecia de uma maior formação rock fez também que um número expressivo de bandas não primasse pela originalidade, o que acabava passando despercebido pelos ouvintes neófitos.

A Legião Urbana talvez tenha sido a banda que melhor sintetizou a situação do rock brasileiro daquela época. Tinha músicos de qualidade técnica sofrível e criatividade nula, mimetizando na maior cara de pau U2, Smiths, Clash e mais uma penca de bandas inglesas punks e pós-punks (e que eram praticamente desconhecidas do grande público brasileiro na época). Contudo, os caras tinham um trunfo: o vocalista e letrista Renato Russo tinha uma certa sensibilidade para melodias marcantes e por letras emotivas. O resultado disso eram canções que cativavam milhares de jovens e transformaram a banda num fenômeno. O problema, entretanto, é que o Legião Urbana era mais um fenômeno emocional do que propriamente musical. Os adeptos da banda queriam muito mais saber da “mensagem” das letras do que propriamente da música em si. Renato e seus companheiros se conformaram com essa situação, e cada vez mais faziam músicas que pareciam destinadas a serem cantadas em luau (chegaram até a lançar um disco chamado “Música Para Acampamento”...). Pessoalmente, não acho a Legião Urbana uma banda ruim, até tem umas canções deles que acho interessantes. A maioria das composições do grupo, entretanto, considero enfadonhas pela indigência criativa e pela falta de uma intensidade roqueira. No mais, considero que a influência deles sobre toda uma geração foi prejudicial, pois ofereceu à mesma a noção distorcida de que a “mensagem” da letra vale mais que a música.

Mas apesar de todas as precariedades descritas, o rock brasileiro dos anos 80 teve um papel positivo fundamental pelo aspecto de ter ajudado a construir toda uma infra-estrutura para o gênero que até então era inexistente no nosso país. As canções de bandas brasileiras começaram a ficar mais presentes nas rádios, as turnês passaram a ter um nível muito mais profissional, produtores aprendiam com seus erros e com isso o nível das gravações melhoraram progressivamente, algumas bandas começaram a desenvolver uma sonoridade mais própria e próxima de origens regionais (o Paralamas do Sucesso é um exemplo claro disso), o público começou a procurar mais informação. Ou seja, a cultura rock se consolidou no país. Vale mencionar ainda que apesar do nível de criatividade da maioria das bandas nacionais da época não ser dos melhores, havia algumas bandas brasileiras sensacionais na época, quase todas num âmbito mais underground, que tiveram discos que se mostram cada vez mais perenes com o passar do tempo, como De Falla, Cascavelletes, Violeta de Outono, Fellini, João Penca e Seus Miquinhos Amestrados, Picassos Falsos e Gueto.
Voltando a falar em termos gerais, é claro que os anos 80 foram extremamente marcantes para a história do rock. Foi o período em que tivemos o ultra-influente período do pós-punk (Killing Joke, Joy Division, P.I.L.), a consolidação da cena independente inglesa (Smiths, Cocteau Twins, Jesus And Mary Chain, New Order), a formatação final do rap e do hip hop (Run D.M..C., Beastie Boys, Public Enemy), o surgimento triunfal do thrash metal (Metallica, Megadeth, Slayer, Antrax), o amadurecimento do underground americano (Black Flag, Sonic Youth, Big Black). O problema é que na época boa parte desses movimentos e bandas ficou quase à margem das rádios e era considerada radical demais para as “massas”, sendo que às vezes conseguir discos desse pessoal era uma tarefa complicada. E é nesse aspecto que se reforça a importância em especial de uma banda que se consagrou definitivamente nos anos 90, mas que é conseqüência direta desse cenário dos anos 80: o Nirvana. A explosão da banda fez com que o grande público voltasse os olhos para uma série de bandas mais pesadas e esquisitas que fugiam do tradicional água com açúcar das paradas. Bandas punks (Green Day, Offspring) ou mais excêntricas (Smashing Pumpkins, Red Hot Chili Peppers) começaram a aparecer com maior freqüência na lista dos 10 Mais, além de bandas dos anos 80 de sucesso mais restrito (Sonic Youth, Rollins Band) que passaram a ter mais visibilidade comercial.
No final das contas, por mais que eu reclame dos anos 80, a verdade é que essa década forneceu alguns dos itens mais queridos da minha discoteca. E no final das contas, o que conta realmente é a capacidade de um disco ou canção se manter atemporal, não interessando o ano em que foi realizado.
P.S.: Para aproveitar, publico abaixo a minha relação dos 20 melhores discos dos anos 80. E não é que é essa decadazinha foi boa pra cacete?

1º) Surfer Rosa - Pixies
2º) Doolittle - Pixies
3º) London Calling - Clash
4º) Daydream Nation - Sonic Youth
5º) Junkyard - Birthday Party
6º) Firstborn is Dead - Nick Cave
7º) You're Living All Over Me - Dinosaur Jr.
8º) Ignite The Seven Cannons - Felt
9º) Tender Prey - Nick Cave
10º) Isn’t Anything – My Bloody Valentine
11º) Room of Lights – Crime And The City Solution
12º) Warehouse: Songs and Stories – Hüsker Du
13º) Tim – Replacements
14º) Sister – Sonic Youth

15º) The Queen Is Dead – The Smiths
16º) Psychocandy – Jesus And Mary Chain
17º) Evol – Sonic Youth
18º) Throwing Muses – Throwing Muses
19º) Songs About Fucking – Big Black
20º) Violent Femmes – Violent Femmes
TOPO
Steve Albini: A Gênese do Barulho
por Daniel Villaverde
A nossa capital, Porto Alegre, definitivamente nunca foi uma cidade para shows internacionais de bandas que eu admiro. Lembro-me que o Fugazi tocou em Joinvile e aqui não. Bandas americanas ou européias que gosto acabam sempre tocando no eixo Rio-São Paulo, e algumas vezes em Curitiba, ou no máximo em alguma cidade de Santa Catarina.
Foi meio que um milagre rolar The Evens por aqui no ano passado (já que o Fugazi nunca veio). Mas nem tudo está perdido: mais recentemente, no mês passado nós, pobres gaúchos isolados no extremo no sul, pudemos conferir um show do Shellac. Sim, todos sabem que é “a-banda-do-produtor-do-in-utero-do-Nirvana”. Mas com certeza Steve Albini é muito mais que o produtor de algumas bandas conhecidas: ele teve (e tem) um papel fundamental para o desenvolvimento de um cenário musical que remava contra a maré das grandes gravadoras e do senso comum.
A história de Albini com o cenário musical independente se dá quando o mesmo vai morar em Evanston para fazer faculdade de jornalismo. Em Chicago ele entra de cabeça na crescente cena punk/hardcore da época e começa a editar fanzines. A cena do meio oeste americano estava fervendo, como no resto dos Estados Unidos: Detroit, na década de 1960, já tinha revelado ao mundo duas bandas que deram o pontapé inicial no movimento punk: os Stooges e o MC5. O selo Touch and Go (que depois lançaria discos de futuras bandas do Steve Albini) estava nascendo pelas mãos de Tasco Lee, vocalista do Meatman (uma das primeiras bandas hardcore do meio oeste) e seu sócio Corey Rusk, baixista do Necros.

O primeiro lançamento do selo foi o hoje ultra-raro 7, do Necros. Nos anos iniciais a Touch and Go lançou bandas como Negative Approach, The Fix, e em parceria com a Alternative Tentacles, do Dead Kennedy Jello Biafra, o Crucifucks (de onde saiu o futuro baterista do Sonic Youth, Steve Shelley). Em 81 Meatman, Necros e Negative Approach fazem um tour nacional chamado The Process Of Elimination.
A movimentação e dedicação da cidade vizinha fazem o pessoal envolvido com o punk de Chicago começar a também se movimentar. Se Chicago sempre seria associada ao blues agora lá também teria punk rock! Albini se oferece para ser roadie do TheEfiggies, os heróis do hardcore de Chicago no início dos anos 80. Logo ele fortalece uma grande amizade com o vocalista John Kezdy. Os dois, juntamente com Jeff Pezzati, membro de outra seminal banda de Chicago, o Naked Raygun, começam a se mexer: agendando shows de bandas de outros estados em Chicago, distribuindo materiais de selos independentes, estabelecendo a teia de aranha e a ajuda mútua que vai caracterizar a cena underground americana neste início da década. O próximo passo seria fundar o selo Austmn Records, que viria a lançar os próprios The Effigies, Naked Raygun, e, a futura banda de Albini: o Big Black.
No começo de 1982, a banda era somente Albini, e a sua bateria eletrônica, uma Roland TR-606 (em todos os discos do Big Black, aparece na formação da banda: “roland-drums” como se roland fosse uma pessoa). Desde o início ele procurou desenvolver um cruzamento do punk com uma sonoridade mais caótica, pois sempre foi fã tanto de hardcore como de Kraftwerk, PIL,Killing Joke e Einstürzende Neubauten. Reza a lenda que o ex-Minor Threat, Lyle Preslar chegou a participar em alguns ensaios. O primeiro EP, Lungs, é gravado totalmente no quarto de Albini, em uma gravação low-fi (de baixa fidelidade). Logo se juntam à banda dois membros do já citado Naked Raygun, Jeff Pezzati e Santiago Durango. Depois de gravar dois EPs, Pezzati deixa o Big Black. Em seu lugar entra Dave Rilley, que trabalhava em um estúdio freqüentado por Sly Stone e George Clinton. Portanto, Rilley era um grande fã de funk e levou esta influência para o som da banda; tanto que o Big Black fez cover do clássico de James Brown, The Payback. Seguem fazendo grandes turnês, marcando seus próprios shows num esquema “faça-você-mesmo”, desbravando um Estados Unidos ainda desacostumado com uma cena independente. Em 86 lançam seu primeiro full: Atomizer. As letras giravam entre coisas sobre drogas, medicamentos faixa preta, perversidade sexual, tortura, e outras coisas que faziam a banda ser acusada de racista e sexista. Albini se defendia destas acusações pegando ainda mais pesado nas letras, para chocar os politicamente corretos de plantão, que não entendiam as piadas sarcásticas, a transgressão e o humor negro genial de Albini.
Já pela Touch and Go lançaram o disco que por muitos é considerado seu clássico: Songs About Fucking. Logo depois gravaram um show ao vivo e o lançam tanto em Lp quanto em VHS. Pigpile registra um show do Big Black no Hammersmith Apollo Concert Hall, em Londres, 1987, durante o último tour da banda. O Big Black acaba e deixa seu legado. Não é a toa que Chicago seria um berço para o chamado rock industrial, saindo de lá Ministry, Revolting Cocks, Lard, Pailhead. Todos beberam da psicopatia inicial do Big Black e de suas batidas eletrônicas com suas guitarras angustiantes.
Albini convoca então Rey Washam, ex-baterista do Big Boys (banda texana lenda do skate punk americano), Rey Washam, ex- Scratch Acid (e depois futuro integrante do Didjits) além de David W.Sims (que iria formar o Jesus Lizard). Faltava um nome para o projeto. Como já estava em briga com as feministas e os politicamente corretos, retira de uma série de hentai japonesa desenhada por Shintaro Miyawaki, o nome de sua nova banda: Rapeman (estuprador). Pode-se dizer que, com este nome, (e as letras das músicas) o Rapeman se tornou talvez a banda americana mais boicotada de sua época. Realmente o pessoal não soube compreender o humor ácido por trás de um nerd como Albini, que em suas letras estava apenas retratando o que podia se passar no dia-a-dia de uma suja metrópole americana. Na sua curta carreira, que durou somente dois anos, lançaram 2 EP’s e um LP chamado Two Nuns and a Pack Mule.
Somente em 1992 Albini formaria o Shellac, tendo na bateria o ex-Breaking Circus Todd Trainer, e no baixo o ex-Volcano Sun, Bob Weston (que tocaria na última formação do Missions of Burma, seminal banda de Boston, que tocou recentemente no Brasil). O som do Shellac é mais matemático e cerebral do que o Big Black e Rapeman, algumas pessoas costumam classificar o Shellac como um dos maiores expoentes do chamado “match rock”, por causa de suas mudanças de tempo, constantes e precisas. O termo foi usado pela crítica pela primeira vez para definir a sonoridade do álbum do Slint, Spiderland, não por coincidência produzido por Albini. Apesar do rótulo, eles mesmos gostam de se definir como “apenas um grupo de rock minimalista”. Já as letras inicialmente seriam sobre baseball e Canadá, os dois assuntos favoritos de Albini. Mas, com o tempo, foi-se abordando uma infinidade de outras temáticas. A banda é um projeto mais esporádico, já que Albini e Weston trabalham com produção musical, enquanto Trainer trabalha como gerente de distribuição em uma fábrica, o que talvez explique um grande hiato de tempo entre um álbum e outro. Seu penúltimo disco 1000 hurts é de 2000, e seu último, o Excellent Italian Greyhound de 2007, ou seja 7 anos entre um e outro. Weston possui um ótimo projeto solo chamado Brick Layer Cake, no qual ele toca todos os instrumentos.

A carreira de produtor de Albini daria um texto à parte: ele é tanto requisitado por bandas do mainstrean como por bandas do underground. Assim como produziu Nirvana, ele também trabalhou com os holandeses anarquistas do The Ex, assim como gravou com a PJ Harvey, gravou também Sudge, do Neurosis, e por aí vai. Albini gravou uma infinidade de bandas como, por exemplo: Jon Spencer Blues Explosion, Jawbreaker, Screeching Weasel, The Amps, Sloy, Man or Astro-man?,Godspeed You Black Emperor, Urge Overkill, Pixies, The Jesus Lizard, The Breeders, Superchunk, Helmet, Jimmy Page & Robert Plant, Nine Inch Nails, Iggy & the Stooges , e muitas outras. Portanto, se você tem uma banda e alguns dólares no bolso, por míseros 650 dólares por dia Albini pode ser seu produtor. Fora o aluguel do Eletrical Audio, seu estúdio. Mas olha que estúdio: www.electrical.com. Simplesmente de cair o queixo!
Shellac esteve aqui!

Deixemos então de lenga-lenga e vamos para o show. Chegando em frente ao tradicional reduto do udigrudi musical porto-alegrense, o Garagem Hermética, confesso que já pensava: pouquíssimas pessoas! Não sei se foi por falta de divulgação, ou pelo pessoal não conhecer a banda. No início do show eu contei mais ou menos umas 40 pessoas na platéia, e talvez apenas umas 10 realmente conhecessem a banda, e o resto veio por ser a banda-do-cara que-produziu-o-nirvana-e-outras-bandas-que-eu-conheço.
Logo que a banda sobe ao palco posso notar as características shellacquianas: guitarra no talo que parece uma moto serra, extremamente aguda que dói os tímpanos, baixo ultra grave para balancear com a guitarra, e a bateria marcando os ritmos e contra-ritmos matematicamente. O baterista Todd Trainer é disparado o melhor musicalmente na banda, incrível como ele intercala os tempos com extrema precisão. Vai tocar assim lá na puta que te pariu!
Albini, como de costume (assim como eu sempre pude ver no meu vídeo do Pigpile) amarra a correia da guitarra na barriga ao invés de fazer como todo roqueiro padrão, que coloca a correia no ombro. Aquilo simplesmente choca o sistema! Genial! Ele está com uma camiseta escrita “yankees sucks”.

Apesar de o Shellac ser uma banda apolítica, a postura punk deles se reflete no que é para mim o principal nela: a postura e a ética do “do it yourself”. Em vários momentos do show percebi que mesmo fazendo cara de sérios e arrogantes (Albini é um) eles estavam se divertindo, tocando como num ensaio.
Músicos e platéia eram a mesma coisa, fato que só uma banda com estas características pode quebrar: sendo eles mesmos, marcando seus próprios shows, passando seu próprio som. Sem equipe técnica, sem produção alarmante, sem exigências de camarim, contratos furados com majors, MTV, etc. O set se baseou principalmente em músicas do 1000 Hurts e do Excellent Italian Greyhound . Senti falta de uma música: a quase instrumental Mama Jama, uma das minhas favoritas, e o cover sinistrão de Jailbreak, aquele clássico do AC/DC. Um dos pontos altos foi quando tocaram Steady As She Goes, música que está no DVD Burn to Shine, no qual várias bandas de Chicago tocam suas músicas em uma casa abandonada.
Com certeza o ponto baixo foi no meio do show. Do nada as luzes se acendem e a banda pára de tocar. O trio olha com uma cara de “não tô entendendo”. Olho para trás e vejo nada mais nada menos que uns seis ou mais brigadianos, que, logo ao entrarem, dispararam: “hômi prum lado, muié pra outro, mão na parede, todos”! Juro que me senti num show do D.O.A. com o Black Flag em San Francisco nos anos 80, quando volta e meia a polícia aparecia para acabar com a festa! Só que desta vez ninguém acabou com nada. Assim que todos foram revistados a banda voltou a tocar e todos ficaram felizes para sempre.
No fim do show troquei uma rápida idéia com o baixista Bob Weston. Disse que curtia o Vulcano Sun e ele me agradeceu gentilmente. Perguntei se ele andava junto com o pessoal da cena de Boston no inicio dos 80, fui citando umas bandas e ele concordando, inclusive disse que no show na noite anterior em Santiago, no Chile, tinha um cara na platéia com uma camiseta do SSD, e que ficou espantado. Eu disse que era uma banda popular aqui na América Latina. Ele se despede, quase pedindo desculpas.
É, meus amigos, o Shellac deu uma ótima aula de como se faz rock honesto e independente numa época que isto está quase em extinção!
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