Kleinert e as excentricidades de um colecionador de discos
O mundo Glam e suas apropriações por Dani Hyde
As prefrências pessoais e esquisitas de um colecionador de discos
por André Kleinert
Sendo eu um indivíduo um pouco obcecado por rock e música pop em geral, tenho o costume de prestar atenção em coisas como listas de melhores discos do ano ou de todos os tempos, matérias sobre álbuns ou canções que revolucionaram ou causaram alguma ruptura no panorama mundial da música. Até mesmo dou uma olhada na lista dos discos mais vendidos da semana. Tudo isso para ver se encontro mais algum CD ou vinil sensacional, daquele tipo que a gente fica pensando: “disquinho, por onde tu estavas durante todo esse tempo??”. E nesse sentido, essas listas costumam ser muito úteis para descobrir algumas preciosidades. É claro que em boa parte das vezes uma parcela considerável desses discos nem é tão fundamental ou interessante assim para justificar que corramos atrás. Mas esse trabalho, digamos, de “prospecção” talvez seja um dos grandes baratos de ser um colecionador. A peregrinação por sebos, lojas e sites, a expectativa na busca de um álbum em especial, o prazer da descoberta inesperada de um disquinho há muito desejado que está lá esquecido num canto empoeirado, putz, isso é um negócio divertido demais (está bem, admito que sou um pouco doente...)!!
Ao mesmo tempo, também confesso que tenho uma certa bronca com tais listas de melhores, maiores, mais importantes ou coisa que o valha. Como disse antes, é claro que elas têm a importância de traçar um panorama sobre o que de mais relevante já se fez no mundo musical. Ao mesmo tempo, entretanto, elas chegam a ser enfadonhas por se referirem a um número bem limitado de discos intocáveis. Dá a impressão que é como se houvesse uma cédula, sempre com os mesmos álbuns, e apenas houvesse uma pequena variação na ordem preferencial de votação. É óbvio que existem alguns discos que são bons demais, que não têm como não aparecer num rol de destaque. Mesmo assim, fica aquele ranço de que quando um crítico musical faz a sua escolha ele parece obedecer muito mais a um critério impessoal do que é previsivelmente mais importante do que por um real gosto pessoal, daquilo que ele realmente escuta quando chega em casa.
Nos últimos 20 anos, por exemplo, a grande maioria das listas de melhores álbuns de todos os tempos tiveram basicamente como obras que ganharam a cobiçada primeira colocação Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band (1967), dos Beatles, ou Pet Sounds (1966), dos Beach Boys. É claro que esses discos revolucionaram a música na época dos seus lançamentos, e na verdade ainda hoje continuam influenciando consideravelmente o cenário musical. Eu mesmo tenho esses discos lá em casa e gosto muito deles. Mas será que realmente são esses os dois discos mais ouvidos por essa gente que participou da elaboração das listas em questão? Sei lá, confesso que tenho as minhas dúvidas... Na minha lista dos, digamos, 150 melhores discos de todos os tempos eles não estariam. Afinal, nos últimos anos tenho escutado muito mais, por exemplo, Junkyard (1982), do Birthday Party, ou Songs From Northern Britain (1997), do Teenage Fanclub, do que esses ditos intocáveis monólitos culturais. É claro que alguém vai me dizer que isso é extremamente subjetivo e que um especialista em música deveria obedecer a critérios mais sérios e relevantes. Pois eu lhes digo: eu gostaria de ver mais subjetividade nessas listas de melhores. Afinal, o rock e o pop têm muito mais a ver com um apelo emocional e sensorial do que com detalhes técnicos e sociológicos. Isso sem falar que uma das coisas mais fascinantes no mundo do rock e do pop é a quantidade incomensurável de bandas obscuras que permeiam toda a história de tal gênero, grupos esses que muitas vezes não venderam absolutamente nada, foram ignorados pela mídia especializada, não revolucionaram a música, mas que mesmo assim ajudaram a escrever algumas das páginas mais cativantes da história de tais gêneros. E que também, é claro, fizeram a alegria de muitos colecionadores fissurados como este que vos escreve.

Dessa forma, esse meu texto é uma espécie de homenagem àqueles discos que não venderam milhões, não ganharam prêmios de melhores do ano, não estão nas listas dos mais fundamentais de todos os tempos, mas que mesmo assim me ofereceram inúmeras horas de bons sons e viagens. Sinceramente, não sei se vocês depois de lerem estas linhas vão querer ouvi-los, mas certamente eles vão continuam visitando com bastante freqüência a minha vitrola ou o meu discman.

ROOM OF LIGHTS – Crime & The City Solution
Quando se fala na obra-prima Asas do Desejo (1988), de Wim Wenders, uma das seqüências mais lembradas pelos admiradores do filme é aquela em que o Anjo Damiel, ao seguir a sua amada Marion pelas escurecidas ruas de Berlin, acaba entrando em um clube underground e presencia a sensacional performance de uma banda tocando uma melancólica canção de melodia sombriamente bela e recheada de riffs bluesy, além de contar com uma interpretação vocal melodramaticamente carregada de seu frontman. Lembro-me que quando assisti ao filme pela primeira vez, fiquei de queixo caído tanto com a cena em questão quanto com a música em si e fiquei me questionando que raio de banda era aquela. Nos créditos descobri que a mesma era o Crime & The City Solution, sendo que a tal da canção se chamava Six Bells Chime. Por alguns bons anos tentei conseguir os discos da banda, mas era muito difícil, pois os mesmos se encontravam fora de catálogo.
Na única viagem para a Europa que fiz na minha vida, fui para lá decidido a encontrar alguns discos que há muito tempo eu vinha tentando conseguir, e entre eles estava justamente os álbuns do Crime & The City Solution. Depois de muito procurar, achei um disco dos caras finalmente, entre outras preciosidades, na Tower Records de Londres. E consegui justamente o primeiro álbum deles, o Room of Lights (1986), que tem a já mencionada Six Bells Chrime.
O Crime & The City Solution, que encerrou suas atividades em 1990, era uma banda australiana que tinha uma formação espetacular. Para começar, contava com dois ex-integrantes do Birthday Party, demencial banda que tinha Nick Cave nos vocais: o guitarrista de toque ultra peculiar Roland S. Howard e o brilhante arranjador e multiinstrumentista Mick Harvey. O baixista era o irmão de Roland, Harry (que depois acompanhou o brother também no ótimo These Immortal Souls) e na bateria estava Epic Soundracks, membro do Swell Maps, mitológica banda australiana do final dos 70. O vocalista era Simon Bonney, com um vocal fantasmagórico e atormentado na medida certa. Essa formação está em pleno auge em Room of Lights e é a mesma que toca na já mencionada apresentação em Asas do Desejo.
Na edição que consegui de Room of Lights, há um bônus que é de se ajoelhar: vem quase na íntegra o primeiro e raro EP do Crime, o extraordinário Just South of Heaven. Definir o que é a sonoridade de tais discos é algo complicado, pelo risco de cair em imprecisões simplistas. É como se fosse um amálgama vigoroso de rock, blues e baladas, sendo que tal junção de estilos é marcada por certas ambiências de tons quase góticos. Lembra Nick Cave em algumas passagens (não à toa, Mick Harvey também faz parte dos Bad Seeds), mas com sensíveis diferenças: enquanto nas “más sementes” os arranjos são mais intrincados e há uma queda para o tradicionalismo telúrico, nas canções do Crime & The City Solution predomina um rock mais direto, mesmo nas músicas mais lentas, o que fica bem evidenciado nas canções Right Man, Wrong Man; No Money, No Honey e Hey Sinkiller, temas esses que apresentam magníficos arranjos que primam por uma interação impressionante entre as guitarras climáticas e o piano de fortes cores dramáticas de Harvey, aliados a um vocal que é pura decadência romântica e bêbada. Já a clássica Six Bells Chime traz os riffs esquizofrênicos de Roland S. Howard recortando uma melodia lindamente arrastada. A sinistra Trouble Come This Morning traz à mente estranhas paisagens cinematográficas, como se estivéssemos dentro de um saloon contemporâneo e a qualquer momento pudesse entrar um bandoleiro explodindo a cabeça de desavisados.
Após a participação do Crime & The City Solution em Asas do Desejo, a formação original da banda se desfez, com a saída dos irmãos Howard e de Soundtracks. Com a formação reformulada, o Crime partiu para produções mais sofisticadas, lançando obras expressivas como The Bride Ship (1989) e Paradise Discotheque (1990), mas não tão fulgurantes quanto essa verdadeira pérola maldita que é Room of Lights.

LONELY IS AN EYSORE – Vários
Esse é mais um daqueles discos que é impossível fazer algum comentário sem contar uma pequena história pessoal. Lembro-me que lá pelo final dos anos 80 eu estava assistindo a um programa de vídeos num canal qualquer quando fui tomado de sobressalto por um clip estupendo: as imagens enevoadas (típicas da época...) traziam uma banda tocando uma estranha e maravilhosa canção, em que baixo e bateria conduziam um ritmo esquisito e marcial enquanto as guitarras evocavam uma melodia quebrada, quase dissonante, aliado a um vocal feminino meio hesitante e cheio de nuances. Acho que é quase desnecessário dizer que me apaixonei instantaneamente por aquilo. No fim do vídeo, descobri que o nome da banda era Throwing Muses e a tal canção atendia pelo singelo título de Fish. Fiquei sabendo também logo depois que a música em questão não tinha saído em nenhum disco da banda, mas sim em uma coletânea chamada Lonely Is An Eysore (1987), e que a mesma havia saído milagrosamente no Brasil! É claro que tive de fazer uma peregrinação por lojas e sebos, sendo que tive a sorte de encontrar um vinil da tal coletânea lacradinho.
Lonely Is An Eysore é uma espécie de disco evento. Foi lançado como comemoração dos 10 anos de aniversário do selo independente inglesa 4AD, contando com bandas pertencentes ao cast do selo e tendo no repertório apenas músicas especialmente compostas para o disco em questão. A 4AD foi uma das gravadoras indies mais importantes da Inglaterra. Além de um elenco invejável de bandas e da ousadia e criatividade musicais impressionantes de boa parte de seus lançamentos, o selo primava também por um apuro estético notável nas capas de discos e nos seus clips de divulgação. Apesar da imagem do selo estar muito associado aos sons etéreos do Cocteau Twins, espécie de banda símbolo da gravadora, a verdade é que a 4AD sempre foi marcada por uma saudável variedade de bandas e estilos, sendo que Lonely Is An Eusore é prova definitiva disso.
A coletânea abre com uma baita cacetada: Hot Doggie, do Colourbox (duo de irmãos produtores especialistas em black music), é uma combinação explosiva e alucinada de rock, funk e eletrônica, num mix violento de guitarras quase punks, batidas dançantes e colagens desvairadas (com direito a vários trechos sampleados do filme 10.000 Maníacos, clássico do cinema podreira dos anos 60). O que vem logo depois é totalmente o oposto: Acid, Bitter and Sad, do projeto This Mortal Coil, é como se fosse uma pequena sinfonia melancólica, combinando magistralmente sons ambientais a lá Brian Eno com levadas orquestrais levemente distorcidas e mais vocalizações fantasmagóricas. Cut the Tree, do Wolfgang Press, vai quase na mesma linha, sendo uma canção sombria em que guitarra e baixo sinuosos delineiam um diálogo musical belíssimo, pontuado por um arranjo orquestral que oscila entre o delicado e o grandioso. Depois, temos a já citada e inesquecível Fish, com o lado A (da versão em vinil, é claro) se encerrando com Frontier, do duo australiano Dead Can Dance, um atmosférico tema marcado basicamente por percussão e voz, mas com harpas e sintetizadores dando um toque climático genial para a música.
Abrindo o labo B do disco, Crushed é uma típica canção do Cocteau Twins, mas isso não é demérito algum. Muito pelo contrário, pois a música traz tudo aquilo que a banda tinha de melhor: as guitarras cheias de efeito, melodia celestial e a voz espacial de Liz Fraser. No Motion, do Dif Juz, é uma viagem instrumental magnífica, enquanto Muscoviet Mosquito é um tecno-gótico que revela o talento dos belgas Clan of Xymox em combinar instrumentos elétricos com toques eletrônicos. Fechando Lonely Is An Eusore¸ temos novamente o Dead Can Dance com um instrumental de tons quase apocalípticos de nome The Protagonist, que dá a impressão de ser a trilha sonora de algum filme futurista imaginário.
Além de ser um puta disco, Lonely Is An Eusore também é um excelente cartão de visitas para que se conheça mais da discografia das bandas presentes na coletânea, isso sem falar em outros excelentes nomes do cast da 4AD como Pixies, Ultra Vivid Scene e Xmal Deutschland.

DIESEL RIVER – Weather Prophets
Weather Prophets é mais um daqueles casos de bandas excelentes que em termos comerciais não deram em nada e acabaram sucumbindo pela falta de sucesso, mas que com o tempo acabaram se tornando objeto de culto para aficionados. Na época em que estavam na ativa, sofreram uma espécie de menosprezo por parte de crítica e público, sendo acusados de terem uma música excessivamente calcada no Velvet Undeground. Isso não deixava de ser em parte verdade, mas ao mesmo tempo não era motivo suficiente para se deixar de apreciar as belas canções do grupo.
Diesel River (1988) é um retrato fiel de tal conflito. Suas canções parecem sobras de discos do Velvet, principalmente da fase pós-John Cale, de discos como Velvet Underground (1969) e Loaded (1970). Mas convenhamos: um disco de lados B de Lou Reed e seus asseclas já não renderia um belo caldo? Pois esse é justamente o caso de Diesel River. As melodias doce-amargas de Peter Astor, líder e compositor da banda, aliados ao seu vocal tristonho e às guitarras de timbres secos rendem canções memoráveis como Almost Prayed, Worm In My Brain e Like Frankie Lymon. Além, é claro, de serem bem melhores que boa parte da safra de temas recentes do próprio Lou Reed.
Além disso, o Weather Prophets obtém um prodígio considerável: consegue transmutar Stones In My Passway, blues clássico de Robert Johnson, e Downbound Train, rock and roll da lavra de mestre Chuck Berry, em versões que mais parecem terem saído de uma certa banda de Nova Iorque...
Resumindo, o que se pode recomendar sobre Diesel River é o seguinte: consuma o genérico porque o barato é garantido!!
SOUND OF CONFUSION – Spacemen 3
Quando se fala em música psicodélica, logo vêm à mente clássicos lisérgicos e geralmente solares como Forever Changes (1967), do Love, Surrealistic Pillow (1967), do Jefferson Airplane ou até mesmo Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band (1967), dos Beatles. O Spacemen 3, banda inglesa da segunda metade dos anos 80, preferiu construir o seu som viajante por outros meios, trazendo influências mais inusitadas como Suicide, Stooges, blues e gospel. O saldo final dessa excêntrica mistura é uma psicodelia de outra ordem, mais sinistra e obscura.
O ápice da engenharia sônica do Spacemen 3 se configurou de forma plena em obras-primas como Perfect Prescription (1987) e Playing with Fire (1989). Ali estava tudo aquilo que tornou a música da banda uma das marcas mais indeléveis da história do rock: os temas repetitivos de guitarras mântricas e distorcidas, os vocais cheios de influências do gospel, os acordes blues infectando a lassidão punk e chapada das canções, a percussão discreta que acentuava ainda mais o minimalismo do som da banda. Todos esses elementos, contudo, já estavam esboçados de forma ainda mais crua no álbum de estréia do Spacemen 3, o perturbado Sound of Confusion (1986). Apesar da não ter a concisão e apuros formais dos discos posteriores, Sound of Confusion impressiona justamente pela rusticidade e pelo alto grau de improvisação. Losing Touch With My Mind inicia o disco com guitarras incandescentes e de riffs absolutamente viciantes. Já Hey May é um quase blues de andamento trôpego e acordes mínimos de efeitos hipnotizantes. Rollercoaster é uma versão assustadora do original dos psicodélicos underground 13th Floor Elevators, quase 8 minutos de acordes tenebrosos e quase nada de solos ou variações. O ritmo bêbado e o vocal cavernoso marcam Mary Anne, enquanto o gospel sideral dá uma dimensão ainda mais estranha para a bela Walking With The Jesus (que posteriormente foi regravada pela própria banda numa versão menos excêntrica em Perfect Prescription).
O Spacemen 3 encerrou as suas atividades em 1991, com seus integrantes partindo para diversos projetos paralelos, sendo o mais bem sucedido deles o Spiritualized, banda essa que lançou pelos menos mais duas obras imprescindíveis, Lazed Guided Melodies (1992) e Ladies and Gentlemen We Are Floating in Space (1997), trabalhos esses que estenderam ainda mais a iniciativa de se redefinir os caminhos da psicodelia musical, mas que também não dispensam a audição urgente do extraordinário Sound of Confusion.
TOPO
O mundo Glam e suas apropriações.
por Dani Hyde
Do final dos anos sessenta até o final dos setenta, a Inglaterra viveu a montanha russa das apropriações e negações no mundo rock. Sem dúvidas que para nós do século XXI essa é uma rotina diária, mas na famigerada Swinging London, o estrelato reluziu pra uma porção, e anulou outros tantos da sua própria história. Sorte nossa que a obsessão de alguns acaba por apontar um facho de luz nesses becos escuros.
A Swinging London era uma república paralela, opositora ao Flower Power dos hippies; a era da British Invasion, quando Beatles, Stones e The Who gritavam nas rádios; quando Carnaby Street era base de qualquer pano que Twiggy vestiria nas revistas de moda, mas também fornecia material diretamente das suas latas de lixo para uma nova geração cansada de protestos, misoginia e cores neutras, a dizer, figuras como David Bowie e Marc Bolan. Na Swinging London, os jovens corriam pro cinema assistir o Blow Up do Antonioni, empuleiravam no muro do Reino Unido pra descobrir a nova peripécia de Andy Warhol e transbordava música negra (quase sempre americana) de todas as esquinas. A Swinging London era onde Shirley Bassey mijava na pia de um clube de quinta categoria; o luxo e o lixo, o preto e o branco e mais uma miríade de ambigüidades, cenário perfeito para o nascimento do Glam Rock.
Então eles vieram. Bowie, Bolan, Gary Glitter, Roxy Music, Suzie Quatro e todas essas “pretty things” que deixaram o mundo não só colorindo, mas brilhando. E o Glam atravessou o Atlântico, e contaminou Lou Reed, Iggy Pop e os fabulosos New York Dolls (que por sinal estarão aqui em Abril, dá pra acreditar?). E no meio desse barulho todo, quem lembraria de um caipira da Pensylvania, não é mesmo?
Vamos falar um pouco de Bruce Wayne Campbell, mais conhecido, ou pelo menos conhecido como JOBRIATH. O homem é um marco referencial de comportamento, de música, estilo, forma e uau, marketing!
Sua história é parecida com a de alguém que de certa forma foi “culpado” pelo seu desaparecimento do showbizz (suspense): Garotinho do interior, vai pra cidade grande (aqui, Califórnia), entra pro elenco de Hair, monta uma banda meio riponga - que vale demais o conferes, PIDGEON -, manda uma demo pro dono da fuckin’ hype Eletric Circus (uma mega casa noturna), o cara se apaixona e fecha um contrato de 500 milhares com a Elektra.
Rock and roll, extraterrestres, drogas, outdoor gigante na Times Square homossexualismo... Tudo isso tá na moda, certo? Noooooot! Estamos em 1973, ninguém aqui falou até agora que era GAY! Androginia é lindo, o Bowie é bi, mas não pode haver um rockstar bicha, ainda mais na AMERICA, terra dos bravos!
Reza a lenda que Jobriath era a resposta americana para o sucesso de David Bowie, era a resposta definitiva americana para o glam rock, até que o nosso Bruce Wayne começou a dizer que aqueles carinhas afeminados eram um embuste, e que ele era “pra valer”. “I am a true fairy” – dizia o ex-futuro ídolo das multidões. Não fosse por esse desabafo, talvez seria mesmo. Aliás, esse disparate já dá a dica pro ponto alto do texto, fique ligado.
A fadinha glam da América gravou dois álbuns (que na verdade saíram da mesma sessão, o segundo foi uma tentativa derradeira de reparo). “Jobriath” (73) e “Creatures of the Street” (74). Ambos geniais no que se propõe o glam, sofisticado como só Jobriath poderia ser. É sim muito parecido com Ziggy Stardust, mas a interpretação do americano dá o toque final e inconfundível, algo como um Ziggy na Broadway. Difíceis de achar, prováveis na clandestinidade, as faixas que não devem ser ignoradas são: [do primeiro] o hino sadomasô Take me, I´m yours; World without end (que eu considero a Look Back in Anger dele); Earthling (hmm, já viu esse nome em algum lugar?); a “Bolan-esque” Rock of Ages; o hino gay I´M A MAN; [do segundo] a teatral Dietrich/Fondyke; ooh la la; SISTER SUE; liten up (é possível até ouvir o Bowie nessa, demência total).
Em 74 Jobriath já é um fracasso de vendas e um dos maiores prejuízos da Elektra Records, esquecido pelo mundo, vai se refugiar no quarto da pirâmide do Chelsea Hotel e assumir a identidade de Cole Berlin, cantor de cabaret (que na verdade se apresenta em restaurantes meia boca de Nova Iorque).
Ainda em 74, David Bowie lida com o suicídio de Ziggy, que deixou seus fãs insanos, lida com sua própria insanidade devido às drogas, e com a mente absorta em Burroughs e Orwell. É lançado o Diamond Dogs.
O LEGADO
Jobriath desapareceu como artista, mas deixou algumas pistas da sua existência no trabalho do próprio Bowie e passa a ser venerado por grandes estrelas a partir dos anos 90.
O “american space gay man” deixa suas marcas na touquinha de Pierrot do Major Tom de Ashes to Ashes, já utilizada por ele 7 anos antes (sem contar que a composição dessa persona também leva grandes doses do alemão Klaus Nomi); no nome do álbum mais eletrônico de Bowie, “Earthling” e semelhanças enormes entre a música que leva esse título e Fascination (do álbum Young Americans); e mesmo em 1974, na capa do Diamond Dogs (talvez a resposta de Bowie para os americanos).
Falando nessa capa, chegamos na segunda referência-mor da dita, o encarte da trilha sonora de Velvet Goldmine. Antes de continuar vejamos as três:

Em 1998, Todd Haynes dá ao mundo a maior homenagem já feita para o glam rock no cinema. Velvet Goldmine infelizmente só circulou nos espaços alternativos, exibindo na pele de alguns poucos personagens, as características e personalidades de uma dezena deles. Jobriath está nos trejeitos e na música de Brian Slade, e mais claramente, como o anjo que passeia por cima, assistindo tudo, uma entidade do glam, o belíssimo Jack Fairy (fairy = fada, capicce?).
Pra encerrar, retrocedemos um pouco, em 1992. Ano em que Morrisey se apaixona loucamente por Jobriath, e solicita que o astro olvidado abra os shows da sua turnê. É só então, que Moz descobre que Bruce Wayne Campbell, esse nosso Batman às avessas, havia falecido em 1983, sozinho em seu quarto de pirâmide com teto de vidro, por complicações da AIDS.
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