CAPA

 

Zombie Walk: Saindo do cinema para as ruas
Por Claúdia Borba

    O evento underground Zombie Walk se define por um número considerável de seres vivos (pessoas e animais) caracterizados de mortos vivos.Preliminarmente, os moribundos organizam o evento pela internet (Orkut, Mirc, MSN, e-mail, sites, etc.), em que marcam um ponto de partida e estabelecem uma rota, pela qual invadirão centros, parques, praças e lugares bem movimentados de senhoras cardíacas, esquizofrênicos, camelôs desdentados – que por sua vez são confundidos com zumbis – e motoristas mal-humorados, cujos carros serão atacados e sujos de sangue.  

 Filosofando sobre

    Cabeças de porco, atores pornôs, mulheres, crianças, cachorros, funcionários públicos, velhinhas e outros tipos deixam a vida uma vez por ano para invadirem os lugares centrais de Porto Alegre com suas melhores versões de morto-vivos. “Não é todo dia que podemos escolher a roupa com que vamos morrer” Disse uma moça vestindo uma roupa ridícula.  Discursos profundos quanto o posicionamento ideológico-político-racional se resumem em “Uhhhhh” “Gahhh” “Ohhhhhhhh” “Mioooooolos”, ou seja, os zumbis de Porto Alegre, que desde 09/12/2006 começaram a exibir seus corpichos mutilados e podres sobre o asfalto quente da cidade, têm muito a dizer aos “pseudo seres vivos” (afinal, o que é vida? Comer rabanete e ver Faustão no domingo?). Pessoas mais conservadoras, que preferem o calor do carnaval e bundas de fora podem até mesmo se perguntar: “mas que diabos é Zombie Walk?’ “ para que serve tamanha inutilidade de corpos em decomposição?” e “essa sujeira toda, esse sangue todo, que nojeira, que brincadeira de mau gosto!”. Realmente, vivemos num país em que celebrar a morte é um tanto inconveniente perto da fodelança do carnaval, em que dão abertura (aliás, uma abertura enorme) à incestos, pedofilias, estupros e muitas “emprenhadas”. Sem contar o culto d’uma beleza superficial e fútil em que é preciso fazer 15452204455 cirurgias para ser peitudo, e ainda, que a cultura do samba carnavalesco foi deturpada pelo funk e pelo axé. Cabe portanto lembrar que, não é pelo fato do evento Zumbi Walk não celebrar a paz, o papa ou 100 anos de qualquer coisa, que há necessidade de se mostrar a bunda, mas sim o interior das pessoas: suas vísceras, tripas, cérebros podres e fraturas expostas. 

 

    Há na juventude uma forma inovadora de lidar com a morte e o Zombie Walk demonstra isso, uma vez que a diversão é não querer parecer vivo, bonito, animado e sim moribundo, canibal, malvado,sem razão ou preocupação alguma com as coisas terrenas, como diria Helder Macedo, “A morte dá poema para jovens” e a partir dessa frase abra-se um leque de reflexões sobre o evento e a morte. Por que não?

Zombie Walk em Porto Alegre

    O primeiro Zombie Walk de Porto Alegre ocorreu dia 09 de dezembro de 2006 reunindo mais de 400 zumbis e ganhou o título de maior Zombie Walk da América Latina. No calor escaldante do verão brasileiro, os mortos-vivos misturavam suor e sangue na composição do figurino.  Mesmo em pleno verão, o evento não eliminou participantes em 2007, pelo contrário, o número de moribundos só cresceu: mais de 500 pessoas compareceram caracterizadas, trazendo além da morte , curiosos, documentaristas, cineastas, fotógrafos e repórteres. para fazer a rota que inicia na Casa de Cultura Mário Quintana, passa pela Praça da Alfândega, Praça da Matriz, Palácio Piratini, Catedral Metropolitana, Viaduto da Borges, Ponte de Pedra, Largo dos Açorianos, Largo Zumbi dos Palmares e Parque Farroupilha, sendo encerrada com muita cerveja nos bares da rua Lima e Silva, no bairro Cidade Baixa. Cenas Curiosas do Zombie Walk de Porto Alegre 2007 O Zombie Walk em 2007 reuniu mais de 500 pessoas ensangüentadas, com machados cravados nas costas, olhos esbugalhados, dentes quebrados e membros decepados. Enfim, como se estivessem voltando de uma guerra, os moribundos alegres e apodrecidos saíram da Casa de Cultura Mário Quintana, irritando os motoristas, cujos carros eram sacudidos e sujos de sangue (sangue de mentira, crianças). Com certeza, se um daqueles motoristas tivesse consigo um machado ou outra arma qualquer teria matado os zumbis como nos filmes: um tiro na cabeça, sem chance de retorno.

    Uma velhinha desmaiou assustada com a centena de mortos descendo a  escadaria da Borges, e um homem no alto de um prédio ameaçando se matar, nunca imaginou que teria que dividir a atenção com outros semimortos. Os zumbis em baixo do prédio gesticulavam o mais alto que podiam “junte-se a nós’ e a EPTC naquele momento se declarou mais um membro contra os moribundos.