Como escutar uma música de uma banda atual sem recorrer ao vício de compará-la a bandas anteriores? Mesmo quando raramente acontece de uma banda ter estilo próprio, as pessoas tentam rotular de alguma coisa, mesmo que esse rótulo não tenha absolutamente nada a ver com a sonoridade da banda. Mas a necessidade de tornar a música assimilável só se faz por esse meio. Isso de comparar e rotular é quase inevitável, todos que querem conhecer uma banda, antes mesmo de ouvir buscam comparações com o que já conhecem. Quando não se consegue rotular, uma sensação incômoda de alienação parece deixar os de espírito crítico deslocados. Não encontrar nenhuma familiaridade com o conhecido é incômodo, causa estranheza.
As bandas principalmente desta década, em sua grande maioria, têm resgatado elementos de bandas antigas. Muita coisa bacana tem sido criada, mas é cada vez mais difícil ouvir uma banda sem lembrar de outra. Grande parte das vezes a semelhança é escancarada, e aí vem as comparações: Raveonettes/Jesus and Mary Chain e anos 50; The White Stripes/Led Zeppelin; Interpol/Joy Division e Television, e por aí vai.
Porque as bandas das últimas 5 décadas tiveram características marcantes, que diferenciaram claramente cada período de criação do rock.
Havia sempre as que não seguiam os padrões de sua época, bandas com estilo extremamente livre, como o caso dos peruanos Los Saicos, grupo dos anos sessenta (1964 a 1966), de espírito selvagem e a frente do seu tempo, habitualmente classificada como “Proto-punk”.
Kraftwerk (1970), Sonic Youth (1981), The Stooges (1967), The Cramps (1976), entre muitas outras, também são bandas que inovaram e fugiram dos padrões de suas respectivas décadas, e continuam soando como algo adiante da nossa própria época.
Espero que esse período em que estamos vivendo agora não seja lembrado como o auge do “eletro rock”, a coisa menos rock que eu conheço. Porque o velho, bom e surrado rock não parece estar presente em quase nenhuma das bandas que representam o estilo. Nem o ineditismo e a genialidade das primeiras bandas eletrônicas. É lógico que existem algumas poucas bandas autênticas com essa classificação, e devem existir algumas bem mais interessantes que as que circulam pela mídia, mas o que se escuta por aqui de rock não tem nada. As mais interessantes poucos conhecem, e a grande maioria é uma réplica de milhares de outras.
Talvez esteja aí mais uma vez a limitação que um rótulo engloba. Se não fosse inevitável classificar tudo, talvez as bandas de eletro rock que fazem jus ao nome não precisassem cair todas no mesmo imenso saco. E isso serve também pras bandas de rock.
Será que nós conseguiríamos tentar conhecer uma banda nova sem antes querer saber em que padrão enquadrá-la, e ouvir sem buscar referências no passado ou em outras bandas? Acredito que existam muitas dessas bandas que não se encaixam em rótulo nenhum. Mas todas elas fatalmente serão reduzidas a algum grupo classificatório, e isso diminuirá emblematicamente a quantidade de pessoas que poderia se interessar pela sua música. Porque os rótulos limitam também o gosto das pessoas. Muitas nem sabem disso, e por gostarem de um determinado “estilo”, deixam de se interessar por conhecer outro, porque esse outro traz uma quantidade imensa de coisas parecidas, ou seja, réplicas sem autonomia justamente do estilo que lhes desagrada. E aí, junto com todas as outras milhares de bandas parecidas, tem uma diferente que foi jogada dentro do mesmo saco. Isso não evitará que ela seja escutada, nem que seja reconhecida por alguns como algo valioso. E, quem sabe, possa até ter uma certa notoriedade. Mas demorará muito mais tempo pra que cause o efeito do ineditismo enquanto não limparmos a cera acumulada nos ouvidos.
Todo mundo reclama que o rock ficou no passado, que não se cria mais nada, mas enquanto esses conceitos tacanhos continuarem a ser repetidos exaustivamente, realmente ninguém vai encontrar nada diferente. Falta criatividade pra quantidade de bandas que existem? Falta sim. Mas será que isso é suficiente pra condenar o rock à cadeira de rodas?
Alguém lembra do que o rock é feito?