Os Melhores Discos de 2007, por André Kleinert
Uma das manias mais características (e irritantes, para alguns...) de fissurados por música, cinema, quadrinhos e afins é ficar fazendo listas de melhores do ano. Sério, mas para esse tipo de gente isso chega a ser quase involuntário, compulsivo mesmo. É um negócio até meio megalomaníaco, afinal, é como se o mundo inteiro estivesse esperando ansiosamente pela listinha do nosso amigo metido a crítico... Mas é aquele velho e surrado ditado, cada louco com sua mania... Até porque também faço parte dessa turma de doentes que adora ficar elaborando ranking dos seus favoritos. Putz, eu me divirto pra caramba com esse negócio, fico imaginando o ano inteiro quem serão os felizes agraciados com tão estimada honra de figurar na minha humilde lista de melhores do ano...
Lembro-me que quando li “Febre de Jogo” do Nick Hornby, acabei me identificando com o autor, pois ele dizia que certas lembranças da sua vida eram muito fortes porque ele relacionava as mesmas com determinadas partidas do seu adorado time Arsenal. É que algo parecido acontece comigo: lembro perfeitamente de fatos que ocorreram na minha vida, até mesmo coisas bem prosaicas, porque associo os mesmos com discos, filmes e gibis que foram lançados nos períodos de tais fatos. Vendo hoje em dia as listas de melhores que já fiz ao longo da minha vida, constato como esses discos, filmes, gibis e livros se associaram a minha memória a um ponto que chega a ser impossível dissociá-los de todos os eventos, marcantes ou não, pelos quais passei. E é claro que não estou relegando essas coisas (discos, filmes, gibis e livros) como pano-de-fundo das minhas memórias nostálgicas, afinal odeio esse papo “os melhores anos da minha vida” (e conseqüentemente essas festas “anos 80” me desagradam profundamente, não passando de puro baile da saudade). Acredito que uma canção, por exemplo, é boa porque ela permanece fazendo sentido para mim ao longo da minha vida, não servindo apenas para evocar memórias.
Bem, mas toda essas digressões servem também para dizer que gostei muito do convite para escrever para esse site sobre os melhores discos de 2007. E não vou enganá-los, meus leitores, dizendo que foi muito difícil escolher os lançamentos musicais desses últimos doze meses que mais me marcaram, pois eu já sabia perfeitamente quais eram os meus discos prediletos de 2007 quando recebi o referido convite para escrever sobre os mesmos. Dessa forma, chega de enrolação e vamos a eles!!
1º) GRINDERMAN – Grinderman
O ouvinte incauto aperta o play e coloca Grinderman para tocar e já ouve de cara o nosso amigo Nick Cave vociferando insanamente logo seguido de um riff sujo que parece um cruzamento bastardo de blues e punk. Vamos ser sinceros: depois da placidez romântica e melancólica de álbuns mais recentes como The Boatman’s Call (1997) e No More Shall We Part (2001), alguém realmente imaginaria que em pleno 2007, 24 anos após o fim do Birthday Party, Nick Cave lançaria um disco movido a guitarras barulhentas, ritmos maníacos e canções absolutamente transtornadas? Pois é justamente isso que o veterano bardo australiano fez. Ao lado de parte dos seus comparsas dos Bad Seeds (inclusive o brilhante violinista Warren Ellis, também membro dos fantásticos Dirty Three e Blackeyed Susans), Cave oferece uma obra que é uma verdadeira descida aos infernos do que o rock tem de mais cru, selvagem e obscuro, remetendo claramente à inesquecível e inclassificável zoeira do Birthday Party.
2º) ERA VULGARIS – Queens of Stone Age
Tudo bem, Era Vulgaris perde por alguns poucos milímetros para Rated (2000), Songs For The Deaf (2002) e Lullabies to Paralyze (2005), os geniais álbuns imediatamente anteriores do Queens Of Stone Age. Mesmo assim, é um disco essencial na trajetória impecável da banda. Tudo que faz os rockers amarem os discos do Queens está lá em Era Vulgaris: os riffs perfeitos, as melodias que insistem em não sair das nossas mentes, os arranjos e a produção detalhistas que nos viciam a ponto de ouvirmos o disco seguidamente para percebermos mais alguma nuance nova. E tudo isso é perfeitamente orquestrado por aquele que é o maestro da banda, Mestre Josh Homme, um cara que está decidido a fazer com que não sintamos tanta falta da sua fundamental banda anterior, Kyuss. Os riffs desconexos de “Turnin’ On The Screw” e o misto de punk e timbres a la Nine Inch Nails de “Sick, Sick, Sick” são de enlouquecer os amantes do velho e bom rock. E no final, o que importa é que Era Vulgaris cumpre o papel essencial de qualquer grande disco de rock sujo e pesado em nos incentivar ainda mais a nos entregar aos grandes prazeres da vida: faturar gatinhas (ou mesmo mocréias), beber todas e arrumar confusão. Yeah!!
3º) BEYOND – Dinosaur Jr
Confesso para vocês que quando ouvi a notícia de que a formação original do Dinosaur Jr voltaria para uma turnê e a posterior gravação de um disco novo logo pensei que se tratava apenas de mero projeto caça níquel. Entretanto, ao ouvir esse magnífico Beyond, o tal álbum da volta da banda, tive de dar o braço a torcer, pois o disquinho é realmente do cacete!! Logo na faixa de abertura, “Almost Ready”, a sensação que se tem é de uma viagem no tempo, em que o ouvinte pode sentir que voltou para o final da década de 80, pois a sonoridade do disco remete diretamente aos clássicos discos do Dinosaur Jr You’re LivingAll Over Me (1987) e Bug (1988), como se Beyond fosse uma espécie de disco perdido da banda, e que na verdade os belos Green Mind (1991) e Where You Been (1993) teriam sido uma espécie de discos quase solo de J Mascis, o líder da banda. Essa impressão, contudo, não significa que Beyond seja uma mera obra revivalista, mas sim um atestado da musicalidade genialmente atemporal do Dinosaur Jr, um som que é amálgama e síntese de boa parte do melhor que o rock já produziu na sua história: as melodias torturadas de Neil Young, a intensidade e urgência punks do Hüsker Dü, a entrega noise do Sonic Youth, o desleixo espontâneo das garage bands sessentistas. A guitarra de J Mascis costura todas essas influências com a velha classe de sempre, com riffs e solos alternando brilhantemente sujeira e sensibilidade pop. E é claro que boa parte do mérito dessa volta triunfal que representa Beyond cabe também ao baixista e vocalista Lou Barlow, que contribui com duas canções sensacionais para o disco, pepitas essas que estão no nível do melhor que o Sebadoh, grande banda capitaneada por Barlow, já produziu.
4º) SKY BLUE SKY– Wilco
Juro para vocês que a minha expectativa em relação a um disco que o Wilco viesse a lançar nesse ano era completamente diversa do resultado final de Sky Blue Sky. Eu imaginava que viria um álbum cheio de suítes, temáticas conceituais, até mesmo alguns instrumentos exóticos. E essa minha expectativa não significava algo necessariamente otimista... O fato é que o disco de estúdio anterior do Wilco, A Ghost is Born (2004), foi decepcionante. A banda soava como um Flaming Lips mais pálido, com uma dose de experimentalismo além da conta, que fazia com que o álbum tivesse diversos momentos enfadonhos. Acho que até o líder da banda, Jeff Tweedy, percebeu a mancada que tinha dado, pois parece que o sujeito tomou vergonha na cara e voltou a fazer em Sky Blue Sky aquilo que é a especialidade do Wilco: rock e pop com influências de country recheado daquelas melodias sonhadoras típicas de Tweedy. Essa retomada de uma sonoridade mais simples, contudo, não representa uma mera reciclagem musical de outras obras-primas da banda como A.M. (1995), Being There (1996) ou Summerteeth (1999) ou dos discos do Uncle Tupelo, a banda anterior de Tweedy. Se em tais álbuns, a influência dominante era das bandas clássicas do underground norte-americano dos anos 80 e 90 como Replacements, Screaming Trees e Meat Puppets, em Sky Blue Sky o que ouvimos é um country rock setentista macio e melancólico temperado por guitarras cheias de nuances melódicas magníficas. Ou seja, Sky Blue Sky é uns dos álbuns mais melodicamente contagiantes dessa década, fazendo-nos lembrar do Teenage Fanclub dos bons tempos de Songs From Northern Britain...
5º) SOUND OF SILVER – LCD Soundsystem
É provável que muita gente coloque Sound of Silver para tocar só para dançar e ficar tomando aditivos químicos e etílicos. Bem, é claro que o mesmo também é perfeito para isso, afinal trata-se de um dos lançamentos mais diabolicamente dançantes dos últimos anos. Mas quem ficar apenas preocupando em ficar pulando no meio da pista vai acabar perdendo outras possibilidades sensoriais desse monumental trabalho mais recente do LCD Soundsystem. Ouvindo com mais atenção o disco em questão, pode-se perceber a incrível equação sonora montada por James Murphy, o chefão da banda, consistindo numa inusitada combinação de beats minimalistas, fusões de sonoridades eletrônicas e instrumentos elétricos, timbres absurdamente bem cuidados e melodias marcantes. A combinação de influências é certeira: a simplicidade dançante do Daft Punk, os experimentos eletrônicos de Bowie (especialmente da Trilogia Berlin) e do Kraftwerk e os sons transtornados do pós-punk. Essa diversidade de sonoridades é filtrada pela concepção musical única de Murphy, tendo como resultado esse Sound of Silver, um dos lançamentos mais inovadores e originais dos últimos anos.