LITERATURA

 

Meninos nada Quadradinhos (A Filosofia, A Criança e o Texto), por Paulo Bentancur*

Para muitos possivelmente parecerá postiça essa questão da criança e a filosofia. Partamos do óbvio: pensar não é prerrogativa apenas dos adultos. Ainda o óbvio: as habilidades cognitivas (investigação, significação, formação de conceitos) fazem parte das leis biológicas, e estão presentes desde a infância.

Parecerá absurdo ou impossível que a criança consiga abrir as pesadas portas da filosofia, impedida de entrar em um recinto irrespirável para quem ainda possui um pensamento puro? Talvez seja se entendermos por filosofia a sua história e não a sua prática, talvez seja se acreditarmos no mito do pensamento puro, como se o raciocínio (garantido por qualquer cadeia genética humana, exceto nas excepcionalidades negativas) não recebesse e processasse informações a todo instante desde muito cedo.

No livro Filosofia na sala de aula, de Matthew Lipman, Frederick S. Oscanyan e Ann Margaret Sharp, fica demonstrado que é perfeitamente possível ensinar filosofia para crianças. Lipman, aliás, o grande nome do livro, cria um verdadeiro método para esse ensinamento. E aqui voltamos ao óbvio: o método nada mais é do que o método socrático, investindo na curiosidade natural como fio condutor da investigação e apoiando-se em situações comuns aos envolvidos para construir e realizar a reflexão.

Dezenas de países aplicaram o procedimento em escolas de 1 o e 2 o graus. Essa nova mentalidade veio se solidificando a partir dos anos 1970, culminando com o belo livro do trio, editado em 1980 nos Estados Unidos e só no fim do século XX no Brasil. Há uns seis anos.

Um adendo: o método de Lipman e sua equipe admite perfeitamente professores sem formação filosófica. Portanto, eu, que sou tão curioso e espantado diante da realidade como um menino de três anos que passa o dia perguntando por que isso e por que aquilo, estou também preparado para escrever ficção de idéias, histórias de invenção recheadas de noções filosóficas e de passagens da vida dos filósofos e suas reações diante da vida.

Era uma vez uma literatura infantil

A literatura infantil, assim como a literatura para adultos, vem conhecendo uma renovação ininterrupta; vem sofrendo abalos, a cada novo autor, renovação em sua linguagem e até em sua estrutura.

A trajetória de evolução e transformação das coisas que compõem o nosso mundo, aplicável ao concreto e ao abstrato, nada poupa, atingindo o homem como um todo, seja ele um adulto ou uma criança.

A filosofia, por exemplo (para adultos, naturalmente), não entrou em cena há mais de 2.000 anos, provavelmente, sem antes conhecer alguma resistência. Mas era mais que cabível, necessária. Era indispensável. Como sobreviver sem pensar, além do prático, a abstração, capaz, e só ela, de nos levar tão longe, para além do modesto lugar que habitamos? Isso que o adulto da época, num certo sentido, conhecia menos da realidade do que uma criança de hoje. Mas crescemos, e a filosofia junto.

A literatura dos contos de fada veio pouco a pouco dando voz a temas que incorporavam problematizações infantis para além das emoções mais elementares do medo e da alegria. Junto com essa perspectiva ficcional – digamos, menos inocente –, o texto, até então pouco mais do que esquemático, e básico, conheceu um adensamento, admitiu brechas na narração, passou a conviver sem complexos com a ausência de uma linearidade até então inevitável, porém agora sem forças para sustentar, sozinha, essa linearidade, a plena satisfação dos ainda pequenos mas já exigentes leitores.

Atualmente são já comuns os livros infanto-juvenis que encaram frente a frente a morte, a violência, o sexo, as drogas, a excepcionalidade, a separação dos pais, a filosofia. A literatura feita para crianças que apostava tão-somente na essencialidade da aventura, de mãos dadas com uma linguagem que não podia correr riscos, que não ousava, sobrevive hoje praticamente apenas nesses livros-jogo, onde se admite a história comportada só para a convivência da estrutura movimentada e renovadora do texto. Você decide qual o destino da Princesa, escolhe o inimigo que o Príncipe enfrentará, opta por qual castigo para o malfeitor. E é só. Distrai, o que não é de todo mau, claro. Mas paralisa o crescimento interno, o (desculpem a palavra um tanto mole, envelhecida) desabrochar do leitor mesmo, o grande leitor.

Se a literatura, como arte, pouco ou nada ganha com esses esquemas narrativos (para ficar no óbvio, esquemáticos), a interação da criança com o texto se dá de forma mais ágil. Trata-se, essa espécie de livros, de uma estratégia de sedução tão imediatista quanto qualquer outra. E, como tudo o que é fácil ou supõe um desafio (cá para nós, também fácil), conquista adeptos. Adeptos, eu disse, não leitores.

Foi para isso que a literatura infantil, como qualquer literatura, como qualquer filosofia, evoluiu? Não. Esse é apenas um dos aspectos desse crescimento. Outro aspecto é a aposta decidida no jogo metalingüístico (tão ao gosto dos poetas no passado recente), não pelo jogo em si (coisa que os livros-jogo dão conta perfeitamente), mas pelo que esse jogo – feito de narração pura, não de instruções – aponta em termos de natureza literária e, em última instância, natureza humana. Um exemplo: O menino quadradinho, de Ziraldo.

No princípio do livro são quadrinhos, primeiro brancos, depois coloridos, com belos desenhos, cada vez mais detalhados. A seguir os quadrinhos vão dando lugar a balões, designação técnica para o desenho geralmente em forma ovalada, disposta horizontalmente, onde dentro estão palavras, frases. Então, junto com os deslumbrantes desenhos, começam a surgir – uma palavra monossilábica aqui, uma onomatopéia ali, uma descoberta modestamente registrada por poucas sílabas acolá, e logo um rio de frases começa a correr.

O menino, que conhecia a imagem – não a palavra –, inicia sua primeira viagem pelo som e o sentido emitidos pelos bichinhos, vivos, do dicionário. Descobre o dicionário. Multiplica a sua vida. Lê.

À medida que o texto avança, em O menino quadradinho, o corpo das letras impressas no livro vai diminuindo. Quando o livro começa, temos letras enormes, típico tamanho de letra para criança ler. Quando o livro acaba, o corpo da letra é 9; menor do que isso só para nota de rodapé. Aliás, é uma nota a última frase: comenta que o leitor deve estar estranhando, que deve estar achando que aquele livro não era para crianças. Era sim. Mas só no início. Que nem a vida.

Ou seja, o livro cresceu, como o leitor dele, um dia, vai descobrir que cresceu. Genial esse Ziraldo, hem! Genial o que um livro infanto-juvenil pode conter em suas páginas...

Autores que contam autores

Em 1992 publiquei Agulha ou linha, quem é a rainha?, recontando Um apólogo, conto de Machado de Assis, publicado em 1896, portanto há 101 anos, hoje. Embora fosse para adultos, o texto machadiano se prestava inteiramente para o público infantil. Não perdi tempo: adaptei a linguagem – diga-se de passagem, com um registro adequado à pouca idade. Machado já deixara meio caminho andado. Algumas frases suas estão literalmente transpostas: tanto servem ao público pretendido pelo autor, adulto, quanto ao público que eu buscava. Conclusão: a fronteira não é tão longe às vezes.

Na verdade, não há fronteira; o que existe é outro território dentro do nosso território. Não custa nada tentar comunicação de vez em quando. E nunca esquecer que o menino que fomos sabe tudo do nosso passado mais remoto, e pode, com autoridade, contar tantos segredos, tantos deslumbramentos, tantos medos – que, em vão, tentamos esconder (se não escrevermos, ou se escrevermos aquele tipo de literatura da “nuvenzinha perfumada” e por aí vai...).

O mais interessante nessa espécie de exercício é que a meninada de repente se via frente a frente com uma nova noção de autoria. Quem era mesmo que tinha escrito a história? O que era reescrever, e por que a nova versão? Assunto bastante curioso. No mínimo, o do ladrão de histórias. Na verdade, o conto fora escrito para o pai deles e agora eu devolvia o texto aos filhos.

Mas no episódio Machado de Assis fiz pouco mais do que um papagaio faria. Inventei mesmo foi com Platão. Os homens na caverna, lançado em 1994 e relançado em 2001, na atual edição da coleção Brincando de pensar, recria a Alegoria da caverna, trecho do livro VII de A República, um dos livros dos consagrados Diálogos. Essa peça de ficção, embretada em meio a um sem-fim de discussões filosóficas, emblemática do platonismo, oferece os elementos básicos da literatura de aventuras. Homens presos em uma caverna, sem ter a menor noção do que seja o mundo exterior, confundindo sombras projetadas contra o fundo da caverna com fatos concretos, reais. Até que um deles consegue libertar-se e sair. A princípio, chocado com a nova realidade, duvida do que vê. Mas logo descobre que o mundo é maior, que a luz (sabedoria) tudo revela. E que deve retornar e libertar os companheiros das trevas (ignorância).

Basicamente, mantive o texto original, mas a forma de contar essas cenas tipicamente épicas, dramáticas, reveladoras, nada tem a ver com Platão. Aí entrei eu, com quem o leitor já estava se acostumando e com quem os verdadeiros diálogos do presente podiam ser mantidos. Platão ainda iria demorar uns 8, 10 anos para eles, os leitores, já na universidade, terem de encarar.

Dar a voz inteiramente ao filósofo seria reproduzir a forma original. Como um fóssil de dinossauro. Impossível ver o animal se mexendo. Então eu, pela re-escritura, dei vida ao fóssil, e desculpem aqui a expressão os grandinhos, estudantes de filosofia, mas ficção acerta na medida até quando exagera.

Demasiada fidelidade ao original milenar sacrificaria um importante dado adicional: a dupla autoria, enriquecendo a noção de discussão, acrescentando um terceiro sujeito nesse diálogo, agora entre Platão, o leitor e eu.

O co-autor, desta forma, passa a ter um papel fundamental. Introduz o universo, quem sabe, rarefeito, quase irrespirável ou incompreensível do autor. (E no entanto, tão perto...) Intermedia as relações entre o leitor e o autor inicial. Desvia a obra original talvez para um outro caminho, talvez para um caminho até um tanto “errado”, mas mesmo assim sintomático do ponto de partida.

E mais: essa coexistência de autores num “mesmo livro” dinamita com a noção simplória e absolutista de que o autor seja uma entidade intocável – noção prejudicial para a leitura mais crítica, ou seja, para a verdadeira leitura.

Filosofia infantil?

Se pode uma literatura infantil, por que não pode uma filosofia infantil? Por que não poderá a filosofia prestar-se (logo ela, a filosofia, que adora prestar-se a todo tipo de experimento e procura) a um novo público, público a exigir dela uma única coisa apenas: que mude o tom de voz, pedindo à filosofia, só isso: que o escute. Que fale para ele, que está ali, para ler, ver, escutar. Ué, filosofia não é isso mesmo, escutar?

Uma filosofia de fraldas?

Calma, gozadores de plantão.

Platão para fãs do Skank? Sócrates para skatistas? Pitágoras, Kant, Heidegger para gente que nem descobriu o orgasmo ainda? Pode até ser de difícil, quase impossível, em alguns casos, a execução. Mas este é apenas um dos caminhos. Há outros. Um deles, o que vejo com alguma clareza: Ziraldo, que é para crianças. E, humildemente, eu, que andei publicando textos (já esgotados) como Cabeça à beça, O menino que não gostava de histórias ou (há disposição do público) O olhar das palavras, As rimas da Rita, O menino escondido, O criador de monstros e... chega de autopropaganda!

Textos que inventam e se enfiam histórias adentro na própria noção de serem um texto, na mecânica da curiosidade, motor de cada um de nós, não importa a idade, nas manifestações de fenômenos como a inteligência, manifesta desde o ato de identificar a voz da mãe durante o ato de mamar.

Enfim, e peço que me perdoem a autocitação linhas atrás, autores, não necessariamente filósofos, dispostos a traçar uma trilha firme na direção de uma região até então submersa para esses leitores ainda imberbes ou que nem menstruaram. Ou que recém menstruaram.

Aliás, a adolescência, época de intensas transformações no indivíduo, me parece ser um período bastante próprio para o exercício filosófico. Às vezes até antes.

Minha filha tinha sete anos e comíamos cachorro-quente numa lanchonete. Súbito, voou um guardanapo, ao acaso, longe do olhar do funcionário que, de costas, preparava um outro lanche. Minha filha comentou, pensativa:

– Pai, será que ele acredita em Deus?

– Acho que sim – respondi.

– Olha só, pai, o guardanapo voou e ele nem viu. Ele não vê tanta coisa... Não sabe que o guardanapo voou e também não sabe de quantos acontecimentos parecidos aqui no trailer? Sobre Deus, um ser assim tão misterioso, como ele pode querer achar que sabe alguma coisa?

Não se assustem, minha filha é normal, com habilidades e dificuldades habituais à sua idade, hoje uma “coroa” de 23 anos recém-feitos. Naquele dia, escutando uma especulação dita por alguém de apenas sete anos, me convenci que a filosofia estava sendo roubada de um determinado público.

Filosofia, sim. Porque se aquilo não foi filosofar, então eu acabo de cair num conto da Carochinha.