Jerome Rothenberg - “Etnopoesia no milênio” , por Mário Iochpe
Com amor e humildade, peço licença para me apresentar textualmente. Meu nome é Mario, moro em Porto Alegre e quero falar sobre literatura. Hoje estou vestindo uma camiseta verde de mangas longas dobradas até o cotovelo, porto um bigode levemente promíscuo e estou sentado em uma banqueta de madeira. Curto imersões no caos, destrinchamentos na confusão mental, arranjos e desarranjos da fascinante condição da vida na carne, mitologias que ainda não foram expulsas da nossa cidade, cheiro de incenso e obsessão com coincidências. Em breve ainda largo dessa vida, vislumbro usar uma túnica em Camaquã ou mais ao leste... e andar descalço numa estrada com plantação de cúrcuma na margem. Quem sabe o que farei com o bigode, ele combina com Porto Alegre e alguma voltagem proto-punk esquizóide do cidadão artificial que eu sou. Então era isso, espero que encontremos folia nesse site que tá nascendo no começo de 2008. Vamos ao texto!
Um poeta que eu conheço há alguns meses e que desde então me impressiona é Jerome Rothenberg. Esse senhor simples e faceiro graciosamente desenvolveu um termo chamado “etnopoética”, abriu para a literatura erudita-esnobe a inclusão de manifestações artísticas e espirituais de diversas culturas marginais à nossa grande civilização industrial, cosmopolita, Koyaanisqatsi, birubirubiruriruriru Koyanisqaatsi. Xamanismo, o outro, estruturas unitárias, coisa do gênero, sim? No Brasil sua obra extensa foi agrupada num livro só e esse resumo se chama “Etnopoesia no milênio”, de 2006 pela Editora Azougue. Jerome nasceu em 1931 em Nova Iorque, no bairro do Brooklyn, filho de judeus ortodoxos imigrantes da Polônia, descende de um notório rabino alemão do século XIII. Desde jovem buscava a experiência da poesia escrita, estudou Letras, esteve na Marinha americana na década de 1950, estudou mais um pouco e virou Doutor, morou alguns anos com os índios sêneca no interior dos Estados Unidos, co-editou uma revista sobre etnopoesia e antropologia, co-edita o site www.ubu.com ,traduz poemas de diversas origens, sabe de cor versos de “Martin Fierro”, era íntimo de Kenneth Rexroth, Allen Ginsberg, conheceu William Burroughs, se dá com Gary Snyder, Anne Waldman, curte uma cachaça, possui um carisma enorme e se interessa pelas pessoas que o cercam. Como eu sei de algumas informações aqui contidas?
Em Novembro de 2007 esse poeta afudê pra caralho veio ao Brasil, esteve em Curitiba para a primeira edição do “Curitiba Literária”, um evento cultural promovido pela prefeitura da cidade. Apresentou algumas poesias antológicas presentes na edição brasileira de sua obra, como “A Santinha de Huautla” e “Cokboy”, peças legítimas da sua fixação por inteirar ao mundo fragmentado a calma e sutileza das visões e vozes de vez em quando esquecidas. Com um microfone na altura da orelha, as mãos livres para representar os gestos dos rituais, transcendendo como um velho índio da colina, como um judeu europeu perdido na nova América do século XIX, como uma bela e cansada curandeira desdentada que toma cerveja quente num trailer no deserto mexicano, que medica através de cogumelos e celebrações astrais. Meus amigos desconhecidos detrás de um monitor de Windows, Jerome Rothenberg aos 76 anos é o replay na nossa geração de Youtube do coração de Mayakovsky, o poeta russo que era um coração do tamanho do corpo. Se a gente afunda infantilmente no niilismo emocional, com o pessimismo como luxo e reflexo das nossas sobras de violência, a sociedade que abandona túmulos e se importa em expulsar formigas e baratas das residências e em passar AIDS imaginária para pombas agarradas nos postes enferrujados de chuva, se a gente faz tudo isso automaticamente e se esqueceu de como sarar do nosso trauma de 12 mil anos de crueldade civilizatória, AQUI tá um homem que se dispôs a amar instintivamente, de amar o ser abandonado, de amar a realidade, na maior tranqüilidade amar... o visionário ressentimento do Philip K Dick, por exemplo (“realidade é aquilo que, quando se pára de acreditar, continua existindo”), as amarguras brilhantes do escritor em isolamento, de uma mente banida da vida, com fome por sentir amor, o cancelamento espiritual do Charles Bukowski, machucado profundamente com as espinhas na adolescência, um capítulo curtinho de “Ham on Rye” relembra um exame médico humilhante na frente de uma junta de juízes frios e estéticos. Minha gente, oh, minha gente, JEROME ROTHENBERG devolve a humanidade que estava esmagada em nossas percepções psíquicas!
Uma poesia inteira, dezenas de minutos de invocação de espíritos protetores, assovios, timbres de voz, sussurros, respiros curtos e ofegantes, respiros profundos e revigorantes, gritos de guerra sugerindo a revolução por um presságio no ar que se habita, o nada existindo como sempre existiu, uma substância mimada e equivocada, ah, minha gente, JEROME ROTHENBERG recitou poesia aborígine por vários minutos e o significado dela jazia inteiramente em um único conteúdo, o mesmo conteúdo que nós aprendemos a dividir e assim a odiar, estamos vivos e estamos aqui, e esse é o presente e era isso, gurizada, o presente é isso que estamos vendo e sentindo, o presente é a riqueza do universo, a nossa posição na galáxia e nosso vínculo de vida ao grande cosmonauta divertido e bagunçado do CAOS...e até idealizando (como a gente constrói fabricações sociais, foda, hein!). Pois bem. Rothenbergzão, majestade envergonhada de seu supremo poder poético, decide sabotar a máquina de vulgarização de especulação estética com um padrão divino - a la tapete persa & arabescos - de amor e amor e calma e amor e diversidade étnica.
Se eu recomendo este livro?
Eu recomendo o início de um ritual xamânico na sala de estar de todo mundo, com introspecção, alucinação, vergalhões de concretude aplainando as vociferações do susto alucinado, daí uma velocidade sincrônica de regressão no espaço, uma fagulha de noção da mensagem de amor que se carrega no corpo que somos, um surfe sinistro e transformador no campo das novidades mitológicas sobre nossos destinos, e uma rápida concentração de toda essa magia para a melhoria de nossas vidas em conjunto e apaziguação de sofrimento nessa idade enteogênica de CAOS E OBSESSÃO E CELEBRAÇÃO CELESTIAL.

Mario, Dezembro de 2007, calor em Porto Alegre, quase sete da noite