REMINISCÊNCIAS DO FIM-DO-MUNDO, por Marcelo Severo
Esta é para ser uma resenha do filme The Day the World Ended, produzido e dirigido por Roger Corman para a American Releasing Corporation em 1956. Corman é um dos nomes mais emblemáticos da ficção-científica da época, mas The Day, se não me engano, é a sua primeira incursão no gênero, o que faz desse filme uma curiosidade. O estúdio, que logo mudaria de nome para American International Pictures, é, também, um dos pilares do cinema fantástico dos anos 50. Juntos, Corman e a AIP produziriam clássicos sci-fi como It Conquered the World (1956) e X – The Man with the X-Ray Eyes (1963), entre outros. Só esses dois nomes – Corman e a AIP – já serviriam para despertar meu interesse e minha caneta, mas há uma outra razão, autobiográfica, que me levou a escrever sobre esse filme.
Quando criança, assisti a The Day nos bons tempos da Sessão da Tarde. Para uma mente infanto-juvenil facilmente influenciável, foi uma experiência marcante. Talvez nem tanto pelos méritos do filme, mas mais pelo fato de ter passado quase três décadas até que eu pudesse descobrir como o filme terminou, uma vez que faltou luz naquela tarde agora tão distante, justo quanto o mutante estava para dar o bote.
Olhando para trás, aqueles filmes antigos de ficção-científica, em conjunto com as histórias em quadrinhos que eu lia, mais o que quer que fosse que eu apreendesse sobre o que se passava na América de Ronald Reagan, ajudaram a criar uma sensação de fim-do-mundo iminente que está perfeitamente representada em The Day. Para simplificar essa sensação, meu sonho de infância era ter um abrigo antinuclear.
Hoje, pensando bem, não creio que Porto Alegre, e mesmo o Brasil como um todo, tenha sofrido qualquer ameaça nuclear, mas é engraçado lembrar que eu acreditava nisso. Assim como foi engraçado ver os punks daqui protestarem contra a promessa do presidenciável Enéas de que, se fosse eleito, o Brasil entraria para o clube da bomba atômica.
Lembro-me com carinho dessa ansiedade pré-Terceira Guerra Mundial, e lamento pelas crianças e adolescentes de hoje, que nascem e vivem privados dessa apreensão.
Voltando ao filme em questão, The Day the World Ended, conta as desventuras de um grupo de sobreviventes do holocausto nuclear. Aqui cabe mencionar que, mesmo sendo um tema comum na ficção-científica daqueles anos dourados, a ameaça atômica era sempre representada através de metáforas, principalmente répteis e insetos gigantes. Raros são os filmes que mostram o fim-do-mundo como conseqüência de um conflito nuclear. The Day abre com um cogumelo e as palavras THE END.
Felizmente, Maddison, oficial aposentado da marinha americana, teve a prudência de construir sua casa num vale cercado por montanhas ricas em minério de chumbo. O plano era passar o resto da vida na companhia de sua filha Louise e do noivo dela, Tommy, que nunca veio (ou veio?).
Aconselhado por Louise, Maddison recebe em sua casa o gângster Tony e a stripper Ruby, o geólogo (que diferença faz?) Rick, o contaminado Radek, e um velho minerador com seu burro. Esse grupo de pessoas incompatíveis convive com dificuldade até serem atacados por um dos mutantes que herdou a Terra irradiada, possivelmente o noivo Tommy.
Essa criatura completamente inverossímil, com cifres, três olhos e uma pele escamada blindada foi criada e interpretada por Paul Blaisdell, pai de alguns dos monstros mais memoráveis da década, como o pepino venusiano de It Conquered the World, os homenzinhos verdes de Invasion of the Saucer-Men (1957) e o vampiro alienígena de Not of this Earth (1957).
Não quero entregar o final do filme, mas os humanos lutam entre si pelo cargo de macho dominante; alguns morrem, alguns vivem; e Deus dá uma nova chance à humanidade na forma de uma chuvarada não-contaminada. Fiel a si mesmo, Corman termina o filme com um paralelo bíblico para Adão e Eva e as palavras THE BEGINNING.
Não é o melhor filme do Corman, mas, com certeza, vale procurar, nem que seja só para lembrar que já tememos pela continuação da vida humana no planeta Terra.