A década de 1970 foi especialmente frutífera em termos de transgressão cinematográfica, repleta de obras polêmicas e iconoclastas como Saló, ou os 120 Dias de Sodoma de Pier Paolo Pasolini, Império dos Sentidos de Nagisa Oshima, e as estripulias anárquicas de John Waters. Porém, poucos filmes geraram tanta controvérsia e reações tão extremas quanto às suscitadas por uma pequena pérola de baixo orçamento chamada Canibal Holocausto. Idealizado e dirigido pelo diretor italiano Ruggero Deodato, o filme ainda é acusado com freqüência por seus detratores de ser uma obra estritamente sensacionalista, que se apropria de um tema tabu, a antropofagia, para exibir um indigesto cardápio de sadismo, escatologia e violência gratuita, numa verdadeira ode ao mau gosto. O filme, no entanto, encontrou fervorosos defensores entre os fãs do “cinema extremo”, mas não sem criar polêmica mesmo entre os admiradores do gênero. O fato de ter sido censurado e banido em mais de 40 países, auxiliou na construção de sua fama de maldito, e na sua gradual elevação à condição de mito do gênero horror.
Em 1979, quando se embrenhou na Amazônia colombiana com uma pequena equipe e um modesto orçamento, Deodato não suspeitava da comoção que causaria no meio cinematográfico. Ele intencionava realizar uma experiência única, repetindo em tom mais grave o mesmo teor de aventura exótica com elementos antropofágicos que ele havia utilizado em seu filme anterior, O Último Mundo Canibal (Ultimo Mondo Canibale / 1977). O resultado final revelou-se mais radical que o esperado, deixando a crítica perplexa, e o público em estado de choque. Canibal Holocausto extrapolou os limites entre realidade e ficção, num misto de aventura, horror e “shockumentary”, amparado em um paradigma original, copiado duas décadas depois pelo superestimado A Bruxa de Blair (The Blair Witch Project/1999).
Uma aventura exótica envolvendo tribos canibais e turistas incautos não era novidade para o habitualmente desconcertante cinema exploitation italiano dos anos 1970. O tema fora utilizado pela primeira vez numa produção italiana em 1972, pelo diretor Umberto Lenzi em Man From Deep River (Il Paese Del Sesso Selvaggio), e o sucesso popular desta produção deixou as portas escancaradas para que outros diretores se aventurassem num gênero tão pouco explorado.
Apesar da trama improvável de Canibal Holocausto, o diretor Deodato utilizou um golpe promocional bizarro, vendendo a idéia de se tratar de uma ficção utilizando como fio condutor um documentário real. O público em geral...acreditou! A ação divide-se em duas partes distintas, centralizando-se primeiro no misterioso desaparecimento de quatro documentaristas americanos ao tentarem retratar o feroz povo “yanomamo” (sic), uma das tribos antropófagas que viveriam isoladas da civilização numa parte remota da floresta amazônica. O fato leva o Prof. Harold Monroe (Robert Kerman) a penetrar no “inferno verde” em busca de uma resposta para os desaparecimentos. Durante o percurso ele enfrenta, além da natureza hostil, a fúria de outras tribos canibais, até entrar em contato com os “yanomamos”, e encontrar entre eles o material filmado pela equipe americana. De volta à civilização, o material encontrado revela uma verdade chocante, mudando o foco narrativo para o documentário em si, onde está contido o trágico destino da equipe, composta por Alan (Carl G. York), Faye (Francesca Ciardi), Jack (Perry Pirkanen) e Mark (Luca Barbareschi).
Neste ponto passamos a acompanhar a trama em primeira pessoa, e a linha segura e confortável que separa ficção e realidade, protegendo o espectador de conflitos éticos e morais, é rompida. A capa que reveste de ficção a trama é retirada. Serão reais os corpos empalados, os animais trucidados, os corpos destroçados e devorados? Deodato, num golpe de mestre do ofício, instaura a dúvida através do choque.
Após a morte de seu guia, a equipe, perdida em meio à selva, vai gradativamente perdendo a noção de humanidade, sendo consumida pelo horror, e pela obsessão em documentar todos os fatos. O contato com os selvagens desencadeia um repertório inominável de atrocidades, gerando cenas que se tornaram ícones do cinema exploitation, como a da índia empalada, o esquartejamento de uma tartaruga gigante, e a aldeia indígena em chamas.
As cenas explícitas de canibalismo, apesar de distorcerem ritos antropofágicos reais para seguirem a lógica própria do universo criado por Deodato e pelo roteirista Gianfranco Clerici, ainda são de grande impacto e incomodam os estômagos mais sensíveis. A perna do guia Felipe sendo amputada a golpes de facão, após ser picada por uma cobra ainda causa aflição; o banquete com cérebros de macaco e a famigerada cena da tartaruga geram a fúria dos ecologistas de plantão; e o estupro de uma índia pela equipe americana é tão repugnante quanto o Prof. Monroe sendo obrigado a devorar um fígado humano. O sangrento clímax embalado pela desconcertante trilha do veterano compositor italiano Riz Ortolani, eleva a tensão a níveis dantescos, sendo difícil esquecer o desespero dos atores diante de uma situação em que tudo parece ter saído do controle, e até mesmo a ficção parece estar sendo devorada pela realidade.
Na época de seu lançamento, a violência cometida no filme, principalmente as cenas reais com animais, gerou tanta controvérsia que Deodato precisou comparecer aos tribunais italianos para responder a processos por “obscenidade”, além de ter de provar que não havia assassinado realmente os atores em frente às câmeras. Uma das cláusulas do contrato assinado pelos atores exigia que eles desaparecessem da mídia durante um ano, e esse foi um dos fatores que fortaleceu o mito de que teriam sido realmente devorados.
DEODATO E A REINVENÇÃO DO CANIBAL
Para compreender o incômodo que o filme causa, mesmo após quase trinta anos de seu lançamento, e a influência que um tema tabu como a antropofagia exerce sobre o imaginário popular, é necessário recuar através dos séculos até a origem etimológica da palavra canibal, para assim embarcar na complexidade de seu horror.
A palavra, ironicamente, foi inventada por outro italiano, Cristóvão Colombo. Ao desembarcar na América, Colombo ainda acreditava ter navegado através do mar tenebroso, onde habitariam criaturas fantásticas das mais variadas espécies, das sereias aos dragões, e foi com a mente povoada de seres lendários que ele ouviu e assimilou pela primeira vez, através de intérpretes arawak, a palavra cariba, que designava os ferozes índios caribes que devoravam seus inimigos, e que significa corajoso, ousado.
Colombo, através de um estranho silogismo, ligou a palavra cariba ao mito dos cinocéfalos, homens com cabeça de cão e apenas um olho, que segundo a lenda devoravam seres humanos, e habitavam um mítico continente paradisíaco. Colombo pensava ter descoberto o paraíso perdido, então uniu a lenda aos fatos e gerou o neologismo canibal (cariba + canis + caniba).
A imagem do canibal chegou ao Velho Mundo, principalmente através das cartas náuticas, como o Novus Mundus de Américo Vespúcio, e de relatos de aventureiros como Hans Staden. A maioria das informações, porém, era envolta de exageros, que atestavam além da predileção dos selvagens por carne humana, a sua ilimitada crueldade. Alguns relatos ultrapassavam o limite da fantasia e faziam menção a homens-cães, crianças em regime de engorda para o abate, e até o engravidamento de prisioneiras para alimentar a gula dos guerreiros. Assim, a figura do canibal fixou-se rapidamente no imaginário europeu, com a antropofagia sendo interpretada erroneamente como um ato de subsistência, crueldade, e ato extremo de vingança contra o inimigo. “Tudo indica que apenas a vingança pode temperar um alimento que a humanidade recusa”, escreveria o Abade G. em sua “História das índias”.
E assim, apesar de pensadores mais esclarecidos, como Thevet e Montaigne terem renegado a fantasia, voltando o olhar para os aspectos ritualísticos, a imagem que definitivamente traduziu os habitantes da América para o Velho Mundo, foi a do horror puro e simples, como afirma Frank Lestringant: “O canibal- seu cortejo de crimes e seu arsenal de espetos, machadinhas e carnes humanas salgadas- instalava-se recém desembarcado, de forma duradoura, no imaginário popular”. E assim, a ficção tornou-se mais interessante do que a realidade, gerando entre os séculos XVI e XVII um tipo de literatura de grande aceitação popular, narrando aventuras fantasiosas em que o canibalismo era a atração principal, fazendo florescer ainda mais os mitos sobre o Novo Mundo e seus estranhos habitantes. O tema canibalismo já nasceu, portanto, sob o signo do sensacionalismo!
Em pleno século XX, Ruggero Deodato acidentalmente reinventa o canibal, e retoma inconscientemente a mesma vertente que gerou os folhetins sanguinolentos do século XVI, que inspiraram Rabelais e seu “Gargantua e Pantagruel”, o teatro “grand guinol”, e “Salammbô” de Flaubert, substituindo a literatura pela película, numa obra paradoxal que discute e condena o sensacionalismo ao mesmo tempo em que ironicamente se aproveita dele. Canibal Holocausto é cinema primitivo por excelência, não renega sua veia popular e, guiado pelo instinto, oferece ao público sangue e circo. Os obstinados documentaristas de Deodato filmam com a mesma voracidade com que os canibais devoram a carne alheia, porém, acabam consumidos pela sua própria obsessão. “Quem são os verdadeiros selvagens?”, indaga um perplexo Prof. Monroe ao final do filme. A pergunta que pode soar pseudo-moralista, após um festival de atrocidades, reflete apenas uma cruel ironia.
Um possível remake de Canibal Holocausto vem sendo cogitado faz algum tempo, porém é muito improvável que venha a causar o mesmo impacto devido à saturação da violência nas telas nos últimos 30 anos. Em 2007 o diretor americano Eli Roth, um fã assumido do filme, homenageou Deodato convidando-o para uma rápida aparição em O Albergue 2, no papel, é claro, de um canibal!