Em termos cinematográficos, podemos dizer que, apesar de tudo, o ano de 2007 foi surpreendente. Boa parte dos distribuidores brasileiros pisou na bola com atrasos e adiamentos de estréias e o não lançamento de filmes muito importantes. Mas, mesmo assim, grandes filmes passaram por nossas telas em lançamentos oficiais e em mostras e festivais. Poderíamos ter um público maior, mas os preços dos ingressos e dos DVDs oficiais foram um dos destaques negativos do ano. Parece que as distribuidoras brasileiras esqueceram que o Dólar baixou e a média de um ingresso inteiro de cinema em São Paulo, por exemplo, beirou os 18 reais, quase nove dólares. Nas grandes lojas, um DVD custa em média 35 reais. A pirataria explodiu como nunca esse ano e acabou fazendo o sucesso de um dos mais polêmicos filmes brasileiros dos últimos 20 anos: TROPA DE ELITE, dirigido por José Padilha. Muito se debateu sobre esse filme durante o ano. Foi chamado de “fascista” por alguns e de “obra-Prima” por outros. Tecnicamente impecável e com uma atuação surpreendente de Wagner Moura, Tropa de Elite virou um fenômeno cultural de massa e, sem dúvida, é o grande destaque do ano dentro da produção audiovisual brasileira.
Outros filmes brasileiros se destacaram em 2007. A CASA DE ALICE de Chico Teixeira, um retrato neo-realista de intensa crueza com um elenco poderoso em cena, principalmente o feminino. DESERTO FELIZ, de Paulo Caldas, uma prova contundente de que o melhor cinema feito no Brasil atualmente está sendo feito no nordeste, principalmente em Pernambuco. Também de Pernambuco surgiu o polêmico BAIXIO DAS BESTAS de Cláudio Assis, uma obra de grande força perturbadora que reafirma o talento autoral de Assis. Foi um ano de afirmação autoral no Cinema Brasileiro em filmes como O CHEIRO DO RALO e, principalmente, CÃO SEM DONO, dirigido por Beto Brant e rodado em Porto Alegre. Esse conjunto de filmes foge totalmente do padrão “envernizado” e convencional das produções cariocas da Conspiração/Globo Filmes e demonstram uma saudável resistência do mais genuíno Cinema de Autor no Brasil.
O ano de 2007 começou com dois grandes destaques vindos da cena mais alternativa do Cinema Independente Norte-Americano. Com atraso estreou no Brasil: MARIA, dirigido por Abel Ferrara, em co-produção com a Itália. Em seu perturbador estudo sobre a fé na sociedade contemporânea, Ferrara mais uma vez utiliza o cinema como suporte para exorcizar suas expiações católicas ligadas à culpa e à repressão, em um filme hipnótico, surpreendente. De outra geração de cineastas independentes, surge Sofia Coppola e sua leitura muito particular do mito de MARIA ANTONIETA, com trilha-sonora de grupos do Pós-Punk como New Order e Siouxie and The Banshes, numa alegoria neobarroca com deslumbrante figurino e direção de arte. Incompreendido por alguns, Maria Antonieta foi um dos grandes filmes do ano, sem dúvida. Outro filme que dividiu opiniões foi BABEL. Iñarritú criou uma obra difícil e ao mesmo tempo de grande sensibilidade. Não tem a excelência de Amores Brutos, mas é um grande filme.
Da recente safra do crescente Cinema Fantástico vindo da Ásia tivemos acesso, em uma distribuição péssima, a dois filmes muito interessantes: o já consagrado O HOSPEDEIRO, vindo da Coréia do Sul, e o chinês SILK, O PRIMEIRO ESPÍRITO CAPTURADO. Foi um ano de poucos lançamentos para o Cinema Fantástico no Brasil. O excelente GRINDHOUSE de Robert Rodrigues e Quentin Tarantino foi mutilado em duas partes e só teve seu primeiro segmento: PLANETA TERROR, lançado recentemente, depois que todos já haviam visto de diversas “formas alternativas”. O segundo segmento só deve estrear em março de 2008, mesmo sendo dirigido por Quentin Tarantino. Á PROVA DE MORTE, além de só chegar em março, não tem a exibição dos famosos trailers falsos da versão original de Grindhouse. Outro absurdo foi o não lançamento nos cinemas brasileiros de O ALBERGUE 2, o melhor filme de Eli Roth, com a presença no elenco de figuras antológicas do Cinema de Horror Europeu como: Edwige Fenech e Ruggero Deodato. Um filme com grandes momentos e um roteiro genial.
Da França, tivemos gratas surpresas em 2007. OS ANJOS EXTERMINADORES, de Jean-Claude Brisseau, é mais do que uma aula de cinema e pintura. Seu erotismo consegue imprimir na tela dimensões oníricas e perturbadoras. Belo, arrebatador. Brisseau deixa sua marca em cada seqüência e os espectadores agradecem. Trabalhando com os elementos sensoriais de maneira sublime, temos o LADY CHATTERLEY de Pascale Ferran. Essa leitura da obra clássica de DH Lawrence mostra o “esplendor da relva”, a natureza como narradora da história e a liberdade dos corpos em êxtase como uma força da mesma natureza, integrados a ela, abençoados por ela. É um grande filme. Tony Gatlif nos brindou mais uma vez com um filme de rara poesia no road movie TRANSYLVANIA, com interpretação antológica de Asia Argento. Dois velhos mestres franceses deixaram sua marca nos cinemas brasileiros, também: Resnais com MEDOS PRIVADOS EM LUGARES PUBLICOS e Chabrol com sua COMÉDIA DO PODER.
2007 foi o ano de EXTERMÍNIO 2, o melhor filme de horror do ano. É muito significativo perceber que essa seqüência conseguiu superar e muito o primeiro filme, sem contar com sua alucinante e já antológica seqüência de abertura. O diretor Juan Carlos Fresnadillo se destaca mundialmente após esse filme, e ficamos ansiosos por seus novos projetos. O mestre William Friedkin surpreendeu a todos com um dos filmes mais perturbadores e geniais dos últimos tempos: POSSUÍDOS, outro filme que teve uma péssima distribuição no Brasil. David Fincher voltou em grande estilo com ZODÍACO, onde vemos um dos melhores filmes sobre serial killers de todos os tempos; com um roteiro excelente, sem contar a fotografia e a edição também impecáveis.
David Cronemberg mais uma vez surpreendeu com OS SENHORES DO CRIME, aparentemente um suspense sobre a máfia russa em Londres, mas que aos poucos se revela um perturbador mergulho aos abismos da alma humana em um roteiro repleto de ambigüidade e cenas sangrentas; como a da sauna, que causou gritos de pavor durante sua exibição na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Outros grandes diretores se destacaram com filmes perturbadores em 2007, como Gus Van Sant e seu PARANOID PARK. Em termos de ousadia formal se destacam I’M NOT THERE, de Todd Haynes, uma biografia livre e experimental do mito Bob Dylan, interpretado por seis atores, entre eles Richard Gere e Cate Blanchett, e REDACTED de Brian De Palma. Fugindo totalmente de seu estilo e ousando como nunca ousou em toda a sua carreira, De Palma reconta a trama de seu excelente filme PECADOS DE GUERRA, transportando a trama do Vietnã para o Iraque atual e os abusos dos soldados norte-americanos. Usando suportes como imagens de câmeras de vídeo caseiro e de segurança, o You Tube e câmeras de visão noturna, vemos o horror renascendo e os mesmos pecados sendo cometidos. Uma obra-prima do genial De Palma.
Numa mistura magnífica de clássicos como CASABLANCA, com pitadas de cinema extremo asiático e um vulcânico erotismo, Ang Lee venceu o Festival de Veneza de 2007 com o maravilhoso LUST, CAUTION. A trama de época, ambientada na China dos tempos da invasão japonesa, mostra o amor proibido de uma espiã pelo seu inimigo, se enredando em uma erótica e violenta teia de desejo pulsante, que beira o sexo explícito em composições de grande beleza mostrando os corpos dos amantes em várias posições, enquadrados como imagens pictóricas onde a pele ganha texturas muito bonitas. A seqüência longa do assassinato é perturbadora. Lee conseguiu se superar depois do impacto de Brokeback Mountain construindo uma obra rara, em todos os sentidos.
Quatro eventos cinematográficos se destacaram em 2007 no Brasil. No início do ano, tivemos a sensacional Mostra John Cassavetes, onde foram exibidos em película clássicos absolutos como SHADOWS, FACES, NOITE DE ESTRÉIA, A MORTE DE UM BOOKMAKER CHINÊS, entre outros. No final de setembro e início de outubro, São Paulo recebeu a visita de dois grandes artistas da vanguarda audiovisual: Peter Greenaway e Kenneth Anger, com exibições gratuitas de filmes e performances, além de exposições. Ao mesmo tempo em Porto Alegre acontecia o III FANTASPOA: Festival de Cinema Fantástico de Porto Alegre que teve uma duração maior esse ano e mais filmes em exibição, além de Mostra Competitiva Nacional e Internacional de Curtas-Metragens. Em dezembro fomos surpreendidos com uma Mostra Completa dos filmes de Alejandro Jodorowsky no Brasil, com exibição de filmes em película, entre eles clássicos como EL TOPO e A MONTANHA SAGRADA, além de palestras sobre cinema, quadrinhos e tarô com o próprio Jodorowsky. O evento rolou em Brasília, no Rio de Janeiro e em São Paulo e ainda teve um debate com o cineasta Carlos Reichenbach e o crítico Marcus Mello após a exibição de EL TOPO.
Resumidamente esse foi o ano cinematográfico no Brasil em 2007. Os filmes citados foram vistos nos cinemas, em estréias comerciais, em mostras/festivais e em DVD. O grande filme na opinião dos sortudos que o viram é o dos Irmãos Coen: NO COUNTRY FOR OLD MEN, que no Brasil vai se chamar ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ. No finalzinho do ano tivemos a estréia do delirante e experimental O IMPÉRIO DOS SONHOS de David Lynch, o filme mais ousado e hermético do grande mestre. LA TERZA MADRE, pelo relato de meu amigo e jornalista Ranieri Rizaa, é excelente. Ele viu o filme em Florença, Itália, na noite do Halloween e falou que o mestre Argento conseguiu se superar. Então é isso. Bons e melhores filmes em 2008 para todos!!!