Cinema

Cristian Verardi e o horror subjetivo de [.Rec]
«Todas as louras do cinema são falsas», por Marcelo Carrard
Felipe M. Guerra fala sobre Nazisploitation


[.Rec]

por Cristian Verardi

Expoentes máximos do atual cinema fantástico espanhol, os diretores Jaume Balagueró e Paco Plaza atingem com [.Rec] uma espécie de maturidade sombria, adquirida após anos de envolvimento com obras que, apesar de irregulares, já evidenciavam o talento de seus realizadores. Paco Plaza já despertava olhares mais atentos com seu excêntrico curta Abuelitos 1, e pela qualidade técnica de Romasanta 2; enquanto Jaume Balagueró, o mais prolixo deles, exercitava suas obsessões mórbidas em obras como A Seita 3 e ASétima Vítima 4. A união de ambos prometia no mínimo um resultado curioso, e talvez a semente deste encontro tenha sido plantada em 2005 quando o veterano diretor Narciso Ibáñez Serrador (de Quién Puede Matar a Un Nino? 5) os convidou para participar da série televisiva de horror Películas para no dormir 6

O fruto desta união surgiu em 2007 com o lançamento de [.Rec], uma produção de orçamento mediano que rapidamente se tornou um estrondoso sucesso nos cinemas europeus, arrecadando a maioria dos prêmios nos maiores festivais dedicados ao gênero fantástico, como Sitges e Fantasporto, além de ganhar os prêmios Goya de melhor edição, e melhor atriz para Manuela Velasco. Em sua essência, pode-se dizer que [.Rec] nada traz de original ao gênero, sendo apenas uma variação sobre dois temas que se tornaram comuns nos últimos tempos: os filmes de zumbis e os filmes em primeira pessoa. Mas, então, por que tamanha comoção em torno de uma obra que nada tem de inovadora? Pois a eficiência em lidar com um sentimento primordial, como o medo, é a melhor arma para burlar ou encobrir os clichês do gênero. Mais do que inovação, o público busca por eficiência. E [.Rec], com sua trama simples, conduzida de forma coesa e pontual, é eficaz no efeito de causar nos fãs de horror aquilo que desejam: medo.

A repórter televisiva Angela (Manuela Velasco) e seu camêraman preparam uma matéria sobre o cotidiano dos bombeiros de Barcelona. Durante uma chamada de emergência, eles acompanham os bombeiros até um prédio onde supostamente uma idosa estaria precisando de auxílio. Ao ingressarem no prédio, aquilo que seria uma chamada de rotina se transforma num pesadelo caótico quando a polícia cerca o local e impede a saída de todos do interior do recinto. Moradores, jornalistas e bombeiros se vêem então diante de uma inusitada e assustadora situação, estão no centro de uma epidemia de zumbis! Todos os elementos canônicos dos “filmes de

zumbis” estão presentes: o confinamento, a contaminação, a luta pela sobrevivência. Mas a condução dos fatos, através de um ponto de vista diferenciado, cativa o público e supera os clichês. A opção em utilizar a câmera subjetiva se demonstrou uma ferramenta eficiente para o desenvolvimento da trama, desnorteando o espectador com sua crueza estética e suas elipses, além de acentuar o clima tenso e claustrofóbico que se estabelece no ambiente. Isolados, e sob pressão, os conflitos humanos eclodem enquanto gradativamente a epidemia se espalha entre eles. A ambição pela notícia, pela matéria em primeira mão, se sobrepõe ao medo e ao desespero, e a câmera obsessiva registra tudo em tempo real. A câmera se movimenta freneticamente, tentando manter o enquadramento, tomba, falha, se ergue, e assim grava a tensão, os conflitos, as mortes, e os seres que se negam a morrer e se movimentam assustadoramente pelos ambientes lúgubres do antigo prédio. Hoje, com a cultura da interatividade a cada dia mais presente no cotidiano e os jogos virtuais cada vez mais realistas, talvez acompanhar a ação em primeira pessoa e ser colocado dentro da trama tenha sido, afinal, o grande diferencial.

A utilização da câmera subjetiva não é nenhuma novidade na história do cinema, e apesar de sua popularização ter ocorrido no final dos anos 1990 através do famigerado A Bruxa de Blair 7, experiências mais antigas se fazem lembrar, como A Dama do Lago 8 de Robert Montgomery, um policial noir de 1947, produzido pela MGM, que, na divulgação do filme, alardeava: “The most amazing since talkies began! You and Robert Montgomery solve a murder mistery together!” E, no fim da década de 1970, o polêmico Holocausto Canibal 9 jogava o espectador em meio a uma tribo de selvagens canibais. Nos últimos tempos, produções com câmera subjetiva, principalmente filmes de horror, começaram a surgir de todos os lados,

O Último Filme de Horror 10, The Zombie Diaries 11, Cloverfield 12. E até o cultuado diretor George Romero experimentou a linguagem em seu mais recente trabalho, Diary of the Dead 13.

Balagueró e Plaza construíram um consistente e assustador filme de horror, burlando armadilhas orçamentárias e provando que clichês e modismos também servem de base para uma eficiente elaboração do medo. A Espanha tem longa tradição no gênero fantástico, de Jacinto Molina a Alex de la Iglesia. Portanto, o sucesso inesperado de [.Rec] só consolida ainda mais o excelente cinema de horror espanhol; no entanto, como efeito colateral, estréia em breve uma inevitável e desnecessária refilmagem norte americana intitulada Quarentine 14.

1- Abuelitos (Esp. /1999) / Dir: Paco Plaza. Curta metragem.

2- Romasanta (Esp. /2004) / Dir: Paco Plaza.

3- A Seita (Los Sin Nombre/ Esp. / 1999) / Dir: Jaume Balagueró.

4- A Sétima Vitima (Darkness / Esp. / / 2002) / Dir: Jaume Balagueró.

5- Quién Puede matar a um niño (Esp. / 1976) / Dir: Narciso Ibáñez Serrador

6- Películas para no dormir (Esp. / 2005/2006) / Série televisiva dedicada ao horror, produzida por Narciso Ibáñez Serrador.

7- A Bruxa de Blair (The Blair Witch Project /E.U.A / 1999) Dir: Daniel Myrick e Eduardo Sánchez

8- A Dama do Lago ( Lady in The Lake / E.U.A / 1947) Dir: Robert Montgomery

9- Holocausto Canibal (Cannibal Holocaust / Ital./ 1979) Dir: Ruggero Deodato.

10- O Último Filme de Horror (The Last Horror Movie / Ingl./ 2003) Dir:Julian Richards

11- The Zombie Diaries (Ingl. / 2006) Dir: Michael Bartlet e Kevin Gates

12- Cloverfield (E.U.A / 2008) Dir: Matt Reeves

13- Diary of the Dead (E.U.A / 2008) Dir: George Romero

14- Quarentine (E.U.A / 2008) Dir: John Erick Dowdle

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Todas as louras do cinema são falsas

por Marcelo Carrard

O Cinema é a Grande Arte do Ilusionismo. As mais indescritíveis mentiras são expressas na tela como se fossem verdades absolutas. Essa mágica singular das imagens originadas dos sonhos é a grande arma que o Cinema possui para preservar através dos tempos o seu poder de encantamento. Na galeria de estrelas cinematográficas, o Mito da Loura se perpetuou de sua nascente com as Divas de Hollywood até hoje onde o imaginário sedimentado por elas criou toda uma aura de poder e sedução para as mulheres com cabelos dourados e um falso jeito ingênuo. Louras falsas, que belo tema para um filme. O veterano Cineasta Carlos Reichenbach, Carlão, para os amigos, mais uma vez recria o Melodrama como Gênero cinematográfico explorando o complexo universo feminino centrado em uma personagem principal, que em busca da realização de seus sonhos e desejos parte para o abismo, com seus falsos cabelos loiros.

É muito interessante o conjunto de releituras que o Melodrama Clássico recebeu, nos trabalhos de cineastas de estéticas distintas como Fassbinder e Pedro Almodovar. Recentemente tivemos os surpreendentes LONGE DO PARAÍSO, de Todd Haynes e ANGEL de François Ozon, muito diferentes em vários aspectos formais. No caso dos filmes do Reichenbach, o Melodrama muitas vezes surge como uma base narrativa onde o Diretor desfila todas as suas influências cinematográficas, fruto de sua voraz cinefilia, com suas obsessões filosófico/literárias, sem esquecer de seus resgates da memória. Em FALSA LOURA, seu filme mais recente, vemos em cena universos familiares para os que são assíduos espectadores de seus filmes. Temos as Vestais, a ambientação urbana, o mar, os amores, os abismos. Encarnando a grande Musa desse filme temos ROSANNE MULHOLLAND, a falsa loura do título, sem dúvida a melhor atriz de Cinema de sua geração.

Na abertura do filme, com os créditos aparecendo em um cenário onde duas mulheres dançam, parecemos inicialmente transportados para alguma seqüência de um filme de Almodovar ou Bigas Luna. Logo Reichenbach começa a imprimir sua marca autoral sólida e conhecemos pouco a pouco as cativantes personagens desse filme genial. A Falsa Loura é uma operária da periferia de São Paulo, vivendo longe da região central da cidade, com seus “Cartões Postais” e seu suposto glamour. Ousada e decidida tem como contraponto a colega “feia”, interpretada por Djim Sganzerla, em uma atuação acima da média. Como “Fada Madrinha” suburbana, a Falsa Loura transforma a colega envolta em sua fealdade, em uma mulher desejável. O palco dessa transformação é o Clube Alvorada, uma espécie de citação amorosa do Clube freqüentado pelas operárias de Garotas do ABC. Algumas pessoas chegaram a comentar de maneira maldosa que FALSA LOURA seria uma espécie de GAROTAS DO ABC 2, mesmo com algumas semelhanças na abordagem do universo feminino ligado ao mundo das operárias, os filmes são muito diferentes. Em FALSA LOURA vemos o sonho da jovem operária em conhecer seus dois ídolos musicais, interpretados respectivamente por Cauã Raymond e Maurício Mattar. A escolha desses atores oriundos de um universo popular, ligado ao mundo das telenovelas globais, foi uma escolha acertada, e ambos surpreendem em suas atuações. O próprio Cauã interpreta as músicas de sua banda, dispensando o recurso muito usado no Cinema, da dublagem.

Os homens que fazem parte diretamente da vida da Falsa Loura são personagens muito marcantes e de grande força em cena. De um lado o pai, amargurado e abandonado pela mulher, com estranhas marcas no rosto, cuja origem descobrimos mais adiante. Do outro lado seu irmão Gay, odiado pelo pai, interpretado pelo transformista Léo Áquila, aparecendo em cena vestindo pela primeira vez trajes “Civis”. O confronto entre esses dois homens nunca é consumado, impedido por uma parede de ódio e ressentimento. A entrega de nossa heroína romântica com seu ídolo interpretado por Cauã Raymond, tem desdobramentos inesperados em um primeiro momento, onde um corte seco nos impede de testemunhar sua primeira noite de amor. As seqüências do casal na praia têm atmosferas oníricas de sensível beleza, como no momento em que a areia e o vento se mesclam com os corpos dos amantes, tudo sempre envolto por uma inspiradíssima direção de fotografia. As cenas do casal com a banda na casa da praia têm um certo clima dos filmes de Jesus Franco, mas claro que existe muito mais do que essa semelhança. O Mestre Zurlini, como de costume, está onipresente em mais esse filme de Reichenbach, que talvez seja um de seus maiores e mais talentosos seguidores. O contraponto das seqüências da praia surge no momento em que temos uma das mais intensas rupturas no roteiro e somos transportados para uma ambientação campestre, como se aos poucos surgisse um estado de transe onde vemos imagens que recriam de maneira original todos os clichês românticos que o Cinema nos acostumou a acreditar, apenas usando imagens e musicas, os diálogos só ocorrem brevemente no início e no fim e são virtuosos. É impagável o sonho da falsa loura onde se vê dentro de um videoclipe exageradamente kitsch ao lado de seu outro ídolo da canção interpretado por Maurício Mattar, com direito a letra no rodapé da tela sendo acompanhada por uma bolinha...

 Um pouco mais de tempo para aprofundar algumas partes da história poderia deixar o filme mais denso, mais complexo em termos de dramaticidade com relação a outras personagens coadjuvantes muito ricas, mas a edição final tem seu valor e as cenas finais são de grande impacto. O rosto de Rosanne Mulholland projetado na tela é o rosto de uma genuína atriz de Cinema. Com sua costumaz generosidade, o Carlão ergue para os céus essa jovem estrela e como espectadores esperamos mais colaborações entre essa promissora atriz e esse veterano Cineasta. O roteiro de FALSA LOURA percorre caminhos inesperados, tem seus silêncios e lacunas, suas rupturas e seus momentos de contemplação. Em um momento em que pouca coisa realmente surpreende no Cinema Brasileiro, um filme como esse, feito por um Mestre, é como uma brisa de verão, um sopro de resistência para o sempre ameaçado de extinção: Cinema de Autor. Desde ALMA CORSÁRIA que um filme do Carlão não me emocionava tanto. DOIS CÓRREGOS e os que vieram depois são filmes lindos, mas particularmente o grande impacto como Obra de Arte para mim tinha sido mesmo ALMA CORSÁRIA. FALSA LOURA é daqueles filmes para se ver “desarmado”, se deixando conquistar com sua história de falsas aparências, emoções baratas e sentimentos profundos.

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Nazisploitation (ou "como fazer filmes para ofender a todos os públicos")

por Felipe M. Guerra

Uma aberração criada por uma cientista nazista diverte-se estuprando prisioneiras virgens ou arrancando e devorando os pêlos púbicos das pobres moças. Uma garota é estuprada com o cano de uma pistola. Oficiais nazistas devoram um feto abortado judeu num jantar de gala e dizem que lembra "carne de porco". Prisioneiros sendo utilizados como cobaias em cenas gráficas de tortura e mutilação. Violência sexual. Espancamentos. Chicotes. Sadomasoquismo. Perversão. Lesbianismo. Castração. Bestialismo. Coprofagia. Enfim, estas e muitas outras coisas que fazem "A Lista de Schindler" e "O Pianista" parecerem uma inocente animação da Pixar. Bem-vindo ao tenebroso, escatológico, truculento e apelativo universo da "Nazi Exploitation", ou simplesmente "Nazisploitation".

Os filmes de exploração (exploitation movies) existiam desde os primórdios do cinema. Em sua essência, eram produções baratas e de má reputação, que tentavam faturar grana fácil trabalhando (sempre de forma sensacionalista e exagerada) temas proibidos pelos corpos de censura ou assuntos considerados tabus pela própria sociedade - nudismo, prostituição, aborto, incesto, uso de drogas, atrocidades, deformações fisicas, exotismo pseudo-etnográfico, canibalismo, tortura, entre outras coisas bonitas.

Dentro deste estilo bastante peculiar (e, por que não?, lucrativo) de fazer cinema, apareceram diferentes ciclos para públicos bem específicos: sexploitation (filmes enfocando situações e atos sexuais), blacksploitation (sobre o universo dos negros), nunsploitation (produções apelativas sobre "o outro lado" dos conventos), os filmes sobre índios canibais, os W.I.P. (“Women in Prison", histórias sobre presídios femininos) e até a chamada brucesploitation (produções estreladas por imitadores do ator Bruce Lee, que se chamavam "Bruce Le" ou "Bruce Lea").

Finalmente, existiu também a nazisploitation, caracterizada por produções apelativas que mostravam, em detalhes gráficos, as violências e injustiças cometidas durante o Regime Nazista na Alemanha, nos anos da Segunda Guerra Mundial (embora alguns roteiristas tenham sonhado um pouco alto demais). Eram realizados principalmente por produtores e diretores italianos, que às vezes rodavam dois filmes ao mesmo tempo, aproveitando figurinos, cenários e atores para baratear os custos. E a ordem era exagerar e chocar, de preferência ofendendo o maior número de pessoas possível, mostrando, às vezes numa mesma história, quase todos aqueles temas "proibidos" e tabus tão comuns ao cinema exploitation.

A onda nazisploitation ironicamente começou com uma produção italiana de bom nível, séria, chamada "O Porteiro da Noite" (Il Portiero di Notte/The Night Porter), dirigida por uma mulher (Liliana Cavani) em 1974. O filme também tinha um bom elenco: o inglês Dick Bogarde interpretava um ex-oficial nazista que, anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, trabalha como porteiro de um hotel, até ser reconhecido por uma antiga vítima dos campos de concentração (interpretada pela bela Charlotte Rampling). Iniciava-se uma dramática e tensa relação regada a sadomasoquismo, num filme que provocou polêmica na época de seu lançamento.

"O Porteiro da Noite" não foi exatamente o pioneiro, pois já havia outras produções anteriores enfocando a temática nazista, como o filme alemão "Des Teufels General" ("O General Demoníaco"), dirigido por Helmut Käutner em 1955, e o norte-americano "Love Camp 7", dirigido por Lee Frost em 1969. Mas foi o grande sucesso de crítica e de bilheteria da obra de Liliana Cavani (a despeito de seu tema forte) que abriu as portas para a nazisploitation.

Ironicamente, os primeiros a tentar faturar em cima da onda não foram os italianos, mas sim os norte-americanos: "Ilsa - She Wolf of the SS", produção de 1974 dirigida por Don Edmonds, era claramente um filme de exploração (todas as mulheres do elenco aparecem nuas, por exemplo), e lançou as bases do que seria a nazisploitation. Praticamente não havia roteiro: o filme se dedica a catalogar o festival de violência promovido por Ilsa (a loira Dianne Thorne), sádica comandante de um campo de concentração nazista, que seduz homens e mulher em meio a cenas de torturas, castração e perversões sexuais diversas.

Lançado na 42nd Street, berço nova-iorquino dos cinemas "grindhouse", e depois nos drive-ins, "Ilsa" foi um estouro e deu origem a uma série de seqüências e imitações. Mas, por algum estranho motivo, as continuações (como "Ilsa - Harem Keeper of the Oil Sheiks", de 1976, e "Ilsa - The Tigress of Siberia", de 1977) abandonaram a temática nazista, mantendo apenas os mesmos níveis de perversão sexual e de violência exagerada do filme original.

Foi a partir de "Ilsa" que a italianada percebeu que havia um lucrativo nicho de mercado ainda não-explorado (exploitation movies sobre a Segunda Guerra Mundial). E diversos produtores começaram a investir em produções baratíssimas que mesclavam diferentes tendências (W.I.P. e sexploitation, por exemplo), tentando faturar justamente pela apelação.

As primeiras tentativas italianas de nazisploitation eram, como "O Porteiro da Noite", mais sérias e requintadas, bem produzidas, com dinheiro para gastar e belos cenários e figurinos, mas não menos violentas ou eróticas. É o caso de "Saló - Os 120 Dias de Sodoma" (1975), do polêmico Pier Paolo Pasolini, e de "Salon Kitty", de Tinto Brass, lançado em 1976. O primeiro, inspirado na obra do Marquês de Sade, ficou mundialmente conhecido pelo seu excesso de tortura física e psicológica (incluindo uma escatológica cena de coprofagia); o segundo é mais pornô softcore, e, ao invés de um campo de concentração, o cenário é um bordel, onde soldados e oficiais nazistas são seduzidos para que deixem escapar informações secretas.

A partir destas duas obras mais sérias, surgiu a nazisploitation bagaceira propriamente dita, que retiraria de "Saló" a violência e de "Salon Kitty" a baixaria (o filme de Brass inclusive foi uma das maiores inspirações, com diversas cópias envolvendo bordéis e nazistas). O auge da produção macarrônica deste ciclo foi entre 1975 e 1977, quando pelo menos 15 produções do gênero foram rodadas, algumas de baixíssima qualidade. Em todas elas, os campos de concentração parecem comandados pelo Marquês de Sade ou por Calígula. Multiplique por 100 tudo o que você viu em produções sérias, tipo "A Lista de Schindler", para ter uma idéia do que acontece.

Quase não havia roteiro: os nazistas eram representados como monstros tarados e sádicos que se dedicavam a transar com homens e mulheres e matar ou estuprar suas prisioneiras - mas o termo "judeu" praticamente nunca foi utilizado nestes filmes, com raríssimas exceções. Cenas reais da época da Segunda Guerra Mundial, ou mesmo de outros filmes, eram usadas na montagem sem qualquer constrangimento, para baratear ainda mais os custos. Enfim, não havia grandes pretensões com a seriedade, com a denúncia dos crimes de guerra praticados pelo Terceiro Reich ou com o chamado "cinema-verdade": os italianos queriam era faturar, com produções que, de tanto sangue e violência, às vezes acabavam sendo consideradas filmes de horror.

Embora outros países também tenham investido na nazisploitation, inclusive o Brasil (com o premiado "Aleluia Gretchen", dirigido por Sylvio Back em 1976, e o trash "O Último Cão de Guerra", que Tony Vieira "dirigiu" em 1980), foram as produções italianas que entraram para a história, principalmente devido aos seus excessos. Mas pouco ou nada desse ciclo foi lançado no país: embora os velhos cinemas de bairro da década de 80 exibissem algumas produções, pouquíssimas chegaram às videolocadoras, e isso nos primórdios do VHS no Brasil, através de distribuidoras pré-históricas que há muito sumiram do mapa. Enfim, nem tente procurar algo do gênero na sua locadora, a não ser que ela seja muito bem servida. E precisa dizer que nenhum foi relançado em DVD no país, embora boa parte tenha edições luxuosas nos EUA e na Europa?

Nos tempos politicamente corretos em que vivemos, pode parecer estranho que alguém encontre diversão nestes filmes que mostram nazistas torturando e estuprando prisioneiras. Na verdade, os nazisploitation movies não foram feitos para serem divertidos, mas sim para chocar o público - não vou dizer que não existiam sádicos e masoquistas que realmente curtiam estes filmes, claro... Ninguém seria maluco de fazer uma obra do gênero nos dias atuais. Felizmente, também, o "choque" que um dia estas produções baratas buscaram foi hoje reduzido à comédia involuntária, já que o festival de abusos e exageros, aliado à pobreza das produções e ao clima reinante de picaretagem, mais divertem do que chocam o espectador. É praticamente impossível levar a sério qualquer uma destas obras, a não ser que você seja um daqueles espectadores que se ofendem com facilidade.

Assim, como muitos outros ciclos já desaparecidos (incluindo os filmes de canibalismo e os W.I.P., marcos de uma época transgressora que não volta mais), a nazisploitation está morta e enterrada, sobrevivendo apenas na memória de lunáticos ou adoradores de filmes bizarros e/ou ruins. Se é o seu caso, "divirta-se" - mas sem levar a sério, claro, pois a seriedade deve ser deixada para Spielberg, Polanski e outros que sabem fazer muito melhor que os Brunos Matteis, Sergios Garrones e Luigis Batzellas do cinema italiano.

O melhor (ou pior) do nazi exploitation italiano

• CALÍGULA REENCARNADO COMO HITLER (L'Ultima Orgia del III Reich/Caligula Reincarnated as Hitler, 1977)

Direção: Cesare Canevari

Elenco: Adriano Micantoni, Daniela Poggi, Maristella Greco e Fulvio Ricciardi.

 

É o nazisploitation movie que o Marquês de Sade faria, se tivesse vivido naquela época. Esqueça o título nacional/inglês pomposo, pois o Calígula não tem nada a ver com a história e o Hitler nem aparece. O filme começa no pós-guerra, quando o comandante nazista Conrad von Starker (Mincatoni) reencontra a prisioneira judia Lise Cohen (Daniela) nas ruínas de um campo de concentração. Através de flashbacks, é narrada a história do amor proibido entre os dois, durante o auge da Segunda Guerra, quando Starker dirigia um campo para prisioneiras judias e promovia todo tipo de tortura e abuso sexual. Como Lise era diferente das outras (não tinha medo de morrer nem respeitava a "superioridade" dos alemães), o comandante decide lhe dar tratamento especial à base de tortura, mas logo se apaixona por ela. Grotesco e sádico, o filme tem uma cena corajosa de canibalismo onde vários nazistas comem, durante um jantar chique, a carne do bebê abortado por uma das prisioneiras. "Parece carne de porco", declara um dos convivas, antes que uma garota seja agarrada, jogada sobre a mesa e queimada viva para a continuidade do "banquete"! Resumindo: um filme que tem um pouco de tudo para revoltar e ofender a todos os públicos - e por isso acabou na lista dos "Video Nasties" (filmes proibidos) no Reino Unido. Lançado em VHS pela Atlantis Vídeo.

 • AS NOITES ROSAS DA GESTAPO (Le Lunghe Notti della Gestapo/The Red Nights of the Gestapo, 1977)

Direção: Fabio De Agostini

Elenco: Ezio Miani, Fred Williams, Francesca Righini e Rosita Torosh.

Um raro nazisploitation que se preocupa com os fatos históricos (se passa em 1941 e tem diferentes citações a acontecimentos reais do período). Miani interpreta o coronel da SS Werner von Uhland, encarregado de arrancar informações secretas de um grupo de figurões alemães conhecidos por odiar o regime nazista. A tática utilizada pelo oficial é hilária: ele convida a trupe para um final de semana de orgias em um velho castelo, onde ninfomaníacas recrutadas pela SS (é sério!) deverão seduzir e descobrir qual deles está encabeçando a conspiração que pretende matar Hitler. Óbvio que cada um dos sujeitos é um pervertido sexual, o que renderá as tradicionais cenas de submissão, estupro, sadomasoquismo, muita mulher pelada e tortura física e psicológica. Entre elas, um médico sádico entregando um bisturi para uma prisioneira e ordenando que ela se "auto-opere". Surpreendentemente, este troço é baseado num livro homônimo, de Bertha Uhland! Lançado em VHS no Brasil com um título ridículo ("Noites Rosas"???) pela Mac Vídeo.

• CAMPO NAZISTA 27 ( La Svastica nel Ventre/Nazi Love Camp 27, 1977)

Direção: Mario Caiano (como William Hawkins)

Elenco: Sirpa Lane, Giancarlo Sisti, Christina Borghi e Roberto Posse.

Espécie de versão nazisploitation de "Romeu & Julieta". A judia Hannah (a bela Sirpa Lane, que morreu de AIDS em 1999) e o alemão ariano Klaus (Posse) se apaixonam nos tempos de paz pré-Segunda Guerra. Aí Hitler assume o poder, a merda começa a feder e Klaus é forçado a entrar para o exército e ir combater o inimigo nas trincheiras, enquanto Hannah, obviamente, é presa e mandada a um campo de concentração. Lá, aprende a usar o próprio corpo para sobreviver às torturas e humilhações, caindo nas graças de um sádico comandante nazista e tornando-se dona de um bordel. Já Klaus, após várias batalhas (todas elas mostradas através de cenas de documentários sobre a Segunda Guerra), volta para casa e tenta reencontrar seu grande amor, sem imaginar o martírio que a garota sofreu desde a separação. Carcereira lésbica? Confere. Estupro? Confere. Chicotadas em mulheres nuas? Confere. Mais um autêntico nazisploitation, sem tirar nem pôr! Lançado em VHS pela Poderosa Filmes.

• GAROTAS DA SS (Casa Privata per le SS/SS Girls, 1977)

Direção: Bruno Mattei (como Jordan B. Matthews)

Elenco: Gabriele Carrara, Marina Daunia, Macha Magall e Vassili Karis.

Cópia de "Salon KItty", do Tinto Brass, com o habitual padrão Bruno Mattei de qualidade (foi filmado ao mesmo tempo com "KZ9 - Lager di Sterminio", reaproveitando figurinos, cenários e figurantes). O sanguinário comandante nazista Hans Schellenberg (Carrara) recebe a missão de descobrir traidores do Terceiro Reich entre os próprios oficiais e simpatizantes do nazismo. A solução encontrada pelo sujeito é construir um bordel, onde ele e sua sádica companheira - a deformada Frau Inge (Marina) - treinam prostitutas para extrair segredos de seus clientes a qualquer custo. Perceba que nazisploitation que se preze é tudo igual. Mattei apenas deixa a desejar no banho de sangue; em compensação, o filme é um catálogo de praticamente todas as depravações humanas: tem toneladas de nudez, sadomasoquismo, lesbianismo, bondage, sexo com freaks (no caso, Salvatore Baccaro, que apareceu em TRÊS nazisploitation do periodo!!!) e até bestialismo (uma garota transa com um cachorro... pastor-alemão, é claro!!!). A produção é tão picareta que até o cartaz é cópia de "Ilsa - She Devil of the SS". Mas deve ser o único filme do Mattei a ganhar quatro estrelinhas no velho Guia de Filmes da Nova Cultural, um verdadeiro milagre! Lançado em VHS pela VMW Vídeo.

• KZ9 - LAGER DI STERMINIO (Women's Camp 119/SS Extermination Love Camp, 1977)

Direção: Bruno Mattei

Elenco: Ivano Staccioli, Lorraine De Selle, Ria De Simone e Gabriele Carrara.

Filmado junto com "Garotas da SS", este deixa de lado as fantasias sexuais para concentrar-se nos sádicos experimentos nos campos de concentração, motivo pelo qual o filme enfrentou problemas com a censura italiana. O falecido Mattei, furioso, reclamou que a baixaria estava liberada (já que "Garotas da SS" passou sem problemas), enquanto que sua tentativa de "denunciar" a barbárie do regime nazista provocou polêmica. Quase não há roteiro: o comandante Wieker (Staccioli) dirige um campo de concentração para onde são enviadas as prisioneiras judias. As feiosas são mortas sem hesitação logo que chegam, enquanto as bonitinhas são submetidas a torturas e a experimentos científicos - incluindo operações no útero mostradas com detalhes sangrentos. A bonitinha Lorraine De Selle (que também apareceu em "Hell of the Living Dead", do Mattei) é Maria Black, prisioneira poupada pelos seus conhecimentos médicos, que acompanha todas as atrocidades como testemunha. É possível ver vários atores que também estão em "Garotas da SS" (como Gabriele Carrara), cenários repetidos e cenas reais da Segunda Guerra (inclusive mostrando prisioneiras de verdade, um horror!) enxertadas na montagem. Inédito nas locadoras brasileiras.

• SS LAGER 5 - L'INFERNO DELLE DONNE (SS Camp 5 - Women's Hell, 1977)

Direção: Sergio Garrone

Elenco: Paola Corazzi, Rita Manna, Giorgio Cerioni e Serafino Profumo.

A exemplo de Bruno Mattei, Sergio Garrone rodou dois filmes de nazisploitation ao mesmo tempo (o outro é "SS Experiment Camp"), com resultados tão duvidosos quanto as duas pérolas do velho Bruno - e também reaproveitando cenas de uma produção na outra! E, como "KZ 9 - Lager di Sterminio", este também se dedica a catalogar as atrocidades de um campo de concentração nazista, sem se preocupar com enredo. No tal Campo 5, as prisioneiras judias comem o pão que o diabo amassou nas mãos do sádico (claro!) coronel Strasser (Cerioni): as bonitinhas são forçadas a virar prostitutas para os oficiais da SS, enquanto as feiosas são transformadas em ratos de laboratório para o sinistro dr. Abraham, que realiza experimentos do tipo atear fogo na vagina de uma das prisioneiras para ver a extensão do ferimento! Toneladas de putaria softcore (e estupro, claro) são entrecortadas com cenas de violência diversas, incluindo cabeça esmagada, língua arrancada e até farpa de bambu enfiada embaixo da unha, que os nazistas devem ter aprendido com o DOPS brasileiro. Além de nazisploitation e W.I.P., o filme tira uma casquinha na onda blacksploitation, colocando uma heróica mulata à la Pam Grier (Rita Manna) entre as prisioneiras! Inédito nas locadoras brasileiras.

• SS EXPERIMENT CAMP (Lager SSadis Kastrat Kommandantur, 1976)

Direção: Sergio Garrone

Elenco: Mircha Carven, Paola Corazzi, Giorgio Cerioni e Serafino Profumo.

 

O elenco idêntico revela que foi filmado ao mesmo tempo de "SS Lager 5", mas não tem comparação: este é muito mais trash e divertido, além de ofensivo o suficiente para ter parado na infame lista dos "Video Nasties". Cerioni repete o papel de comandante nazista de campo de concentração, mas aqui seu nome é coronel Von Kleiben. O cientista-louco, agora chamado dr. Steiner, também é interpretado pelo mesmo ator (Attilio Dottesio). Kleiben teve os testículos arrancados por uma prisioneira que tentou estuprar. Por isso, passa o filme inteiro tentando selecionar o "mais viril" dos soldados alemães do campo, observando-os enquanto eles estupram as prisioneiras. O vencedor da competição é o "nazista bonzinho" Helmuth (Carven), que nem imagina o que vem pela frente: seus testículos são removidos cirurgicamente e implantados no comandante. Quando ele descobre, lidera uma rebelião das prisioneiras. Nada pode preparar o espectador para a cena involuntariamente cômica em que Helmuth encara Kleiben e dispara: "Seu bastardo, o que você fez com as minhas bolas?". Para completar, muito estupro e tortura, incluindo uma prisioneira que é fervida viva num tanque de água e depois congelada, mulheres eletrocutadas, incineradas e cenas bem detalhadas de cirurgias no útero e nos testículos (provavelmente reais, tiradas de algum documentário). Ou seja, um filme para a família toda! Inédito nas locadoras brasileiras.

• LE DEPORTATE DELLA SEZIONE SPECIALE SS (SS Special Section Women, 1976)

Direção: Rino Di Silvestro (como Alex Berger)

Elenco: John Steiner, Lina Polito, Stefania D'Amario e Sara Sperati.

Se você agüentou ler até aqui, deve ter percebido que os roteiros dos nazisploitation movies são idênticos. Este não foge à regra, por isso vamos direto ao assunto: o coronel Emer (Steiner) dirige um campo de concentração (num velho castelo, plagiando "Saló") e se aproveita sexualmente das prisioneiras. Até, claro, se apaixonar por uma delas, a bela Tania (Lina). Como a judia não lhe dá bola, ele passa o filme inteiro abusando dela, ao invés de tentar mandar flores ou algo do gênero. Mas a vingança vem a cavalo quando o médico bonzinho do campo informa Tania sobre um túnel secreto para escapar do local. Antes, porém, ela terá que acertar as contas com Emer... E a vingança envolve uma navalha colocada em determinado local estratégico! Com mais sexo softcore (incluindo lesbianismo) do que tortura e violência, o filme abusa de closes na perereca da mulherada, incluindo uma longa cena de depilação dos pêlos púbicos. Não foge à regra do ciclo: quem viu um, viu todos! Inédito nas locadoras brasileiras.

• SS HELL CAMP ( La Bestia in Calore/The Beast in Heat/Holocauste Nazi, 1977)

Direção: Luigi Batzella (Ivan Kathansky)

Elenco: Macha Magall, Gino Turini, Edilio Kim, Brigitte Skay e Salvatore Baccaro.

 

Para fechar com chave de ouro, o mais trash, divertido e infame da lista, outro que acabou na relação dos "Video Nasties". O diretor Batzella queria fazer o filme mais grotesco do ciclo, o "Cannibal Holocaust" dos nazisploitations. A linda Macha Magall (de "Garotas da SS") é a dra. Ellen Kratsch, cientista alemã e ninfomaníaca que mantém uma aberração (Salvatore Baccaro, quem mais?) aprisionada numa jaula, e se diverte atirando prisioneiras (especialmente as virgens) para a criatura abusar sexualmente delas. Sorte que a Resistência está agindo para tentar acabar com os planos dos nazistas. O problema é que os alemães, mais espertos, aprisionam todas as esposas e irmãs dos rebeldes, que são então submetidas a um festival de tortura e violência sexual. Amador em todos os sentidos (inclui sombra da câmera aparecendo a todo instante), o filme tenta chocar com bebês metralhados, um tiro à queima-roupa na vagina e a pra-lá-de-nojenta cena em que a aberração arranca os pêlos públicos de uma prisioneira e come (em close!). Mas não tem como não rir da pobreza do troço: seis figurantes vestidos como nazistas caminham para lá e para cá, enquanto a edição intercala cenas com multidões de figurantes, tiros e explosões retiradas de outro filme de Batzella sobre a Segunda Guerra, "Quando Suona La Campana", de 1970!!! Ed Wood fez escola...

 

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