Capa

Arquivo Morto e seu recente projeto: Os Batedores

por Cláudia Borba


A Arquivo-Morto é uma das produtoras independentes que, praticando o chamado “cinema de guerrilha”, vem ganhando espaço no meio audiovisual gaúcho. O diretor Filipe Ferreira e o roteirista Ednei Pedroso, a cada nova produção, agregam profissionais de todas as partes do estado, que formam o núcleo dessa produtora.

O trabalho em pauta é o curta-metragem Os Batedores, que nos leva a um dia da vida do batedor de carteiras Raul (Marco Soriano), que precisa pagar R$ 30.000,00 ao Homem (Jack Gerchmann). Uma das referências é a famosa obra de Dyonélio Machado, os Ratos, em que o funcionário público Naziazeno faz de tudo para poder quitar sua dívida com o leiteiro.

As referências a filmes e obras literárias não são novidade na produção dessa equipe, uma vez que, no curta-metragem Alice, desde o figurino até a elaboração dos personagens é inspirado no clássico de Lewis Carrol.

A revista Insólita Máquina entrevistou os rapazes que dão vida a este projeto, entre eles o roteirista Ednei Pedroso, o diretor Filipe Ferreira e o ator que interpreta Raul, protagonista de “Os Batedores”.

Ednei Pedroso

Ednei Pedroso aos 28 anos já criou diversos roteiros que ganharam forma pelo trabalho contínuo da Arquivo Morto.


Insólita Máquina:Como vocês vêem a cena de cinema independente gaúcha? A falta de recursos é a mãe da criatividade?

Ednei Pedroso: O cinema independente gaúcho anda ganhando expoentes cada vez mais numerosos. Por mais que muitos ainda necessitem de leis de incentivos para colocar a "mão na massa", o surgimento de cineastas que abrem mão desta necessidade tem sido cada vez maior. É claro que a criatividade, tanto na escolha de um argumento quanto na produção de um projeto é uma forte aliada aos baixos orçamentos que o cinema independente nos impõe.

 IM: Qual o diferencial e os planos para os Batedores em relação a outros projetos já realizados?

EP: Os curtas realizados pela Arquivo Morto vêm se elevando na qualidade de produção a cada projeto. "Os Batedores" surge como nossa primeira investida com equipamento de ponta, uma equipe diferenciada e um elenco de primeira, sem sair da linha de guerrilha de fazer cinema.

IM: Como surgiu o projeto?

EP: Eu estava em um banco na Redenção, lendo um livro. Um meliante sentou ao meu lado e começou a verificar as carteiras que provavelmente havia roubado no decorrer do dia. Corri para casa e comecei a escrever o roteiro que, depois de uma semana, apresentei ao Filipe Ferreira como uma proposta de um novo projeto. Já estávamos pensando em filmar algo no segundo semestre de 2007, mas ainda não havíamos decidido o que seria. O roteiro foi ganhando adeptos e a simpatia de alguns dos colaboradores de costume da Arquivo Morto, até que resolvemos produzir e colocar a coisa na tela.

 IM: Quais filmes e obras literárias serviram de inspiração para o roteiro dos batedores?

EP: "Os Ratos", de Dyonélio Machado, é uma boa referência literária para a história de Raul. Há influências também dos filmes "Snatch - Porcos e Diamantes", "Os Bons Companheiros", entre outros, para a constituição dos personagens e do andamento da história. É o que eu e o Filipe chamamos de "um filme de bandido".

IM: Os Batedores é o projeto mais ambicioso da produtora até o momento. Vocês já pensam no próximo projeto?

EP: Embora há alguns roteiros sendo analisados, não temos um projeto imediato agendado. Pretendemos filmar pelo menos mais dois curtas ainda neste ano. Com o nível de qualidade que estamos alcançando em "Os Batedores", pensamos também em utilizar isso em possíveis continuações de algumas das nossas produções anteriores.

 IM: Aconteceu alguma situação inusitada/engraçada no set de filmagens dos Batedores? Qual ou quais?

EP: O clima de set é algo fantástico. Praticamente o tempo todo surgem situações. Na primeira diária, por exemplo, tivemos de concorrer em áudio com a Parada Gay na Redenção. No mesmo dia, tivemos de correr atrás de uma pedra cenográfica, que insistia em fugir das mãos do ator principal. Em todos os outros dias foi assim. Em cada diária, surgem essas situações. Infelizmente, nem sempre só coisas boas acontecem.

IM: Os Batedores está ficando/ficou da forma como você imaginou ao escrever o roteiro?

EP: Um grande drama que o roteirista que não é o diretor sofre é o fato de que a coisa nunca vai ficar do jeito que ele pensou. Já passei algo assim com o Filipe Ferreira em outras produções, ou com o Rafael Régoli em "Dia das Mães. Mas, em “Os Batedores" a coisa está ficando melhor do que eu pensava. Nada está sendo cerceado e as adições dispendidas pelo Filipe estão sendo muito bem vindas. Nossa dobradinha está evoluindo.

IM: Mais alguma observação?

EP: Poderia usar este espaço para reclamar da falta de incentivo aos cineastas menos conhecidos, mas estaria chovendo no molhado. Não tenho reais esperanças de que nosso país tome jeito e reconheça o cinema como eu gostaria, mas sigo fazendo cinema porque sou apaixonado por isso. Acho que é motivo suficiente para mover qualquer cineasta independente.

Filipe Ferreira

Filipe Ferreira, ao lado da equipe da Arquivo Morto, inova a produção de curtas-metragens quanto ao gênero e à forma de se fazer e de se pensar em cinema.


Insólita Máquina: Como vocês vêem a cena de cinema independente gaúcha? A falta de recursos é a mãe da criatividade?

Filipe Ferreira: O cinema independente gaúcho sempre se projetou à frente do de outros estados, sempre tivemos tradição nesta área. Tanto que se fala muito (mesmo que já por longos anos no papel) no pólo de cinema gaúcho. Hoje, as faculdades e cursos de cinema se proliferam por aqui. Na realidade o cinema segue o andar da cultura como um todo no estado – somos privilegiados neste sentido. Temos uma cultura rica e estamos geograficamente bem posicionados – perto dos hermanos, que adoram fazer cinema também.

Apesar do Rio Grande do Sul já ter sido um estado mais rico, é agora que o nosso cinema independente tem ganhado mais força. Isso prova, de alguma maneira, que as coisas não estão interligadas. É correto dizer que os fundos culturais, os meios de se conseguir apoios se propagaram. Mas, mesmo sem eles, há gente como nós mesmos: que fazem cinema sem um tostão. Até porque acho que o cinema tem que se pagar em si se for ganhar a rua, as salas. Ele tem que se pagar no ingresso e não com o dinheiro do governo e o dinheiro dos impostos da iniciativa privada. Esta grana deveria ter destinos mais nobres, como educação ou saúde. A cultura se paga em si, afinal de contas existe a possibilidade de vendê-la como entretenimento.

 IM: Você tem formação e trabalha na área de publicidade. O rótulo “cinema publicitário” é um empecilho para alguns diretores. Como você vê a influência desse tipo de formação na linguagem cinematográfica? É um empecilho, ou apenas um rótulo sem fundamento?
FF: É algo que tem fundamento, mas não é empecilho. Aliás, ainda é a única forma de se ganhar dinheiro com cinema por aqui. É fazer cinema da mesma forma que se faz em Hollywood na verdade, sendo descaradamente vendedor com sua arte e deixando de lado a vontade de ser mais visceral, cabeça, vanguarda. É fazer as coisas de forma simples, mas estar sempre preocupado com o verniz e com a clareza da mensagem.

IM: Qual o diferencial e os planos para “os Batedores” em relação aos outros projetos já realizados?
FF: Estamos gravando em um formato novo (XDCAM) e mais pessoas estão envolvidas no projeto. O plano é, primeiro, terminá-lo. Depois, Oscar, Cannes e Berlim.

IM:Os Batedores é o projeto mais ambicioso da produtora até o momento. Vocês já pensam no próximo projeto?

FF: Não. Mas Angelina Jolie e Marco Soriano Jr. devem participar.

Na realidade, estamos brincando com a possibilidade de fazer um 5-15-2 ou um BBZ 2. Algo que dê para matar em um final de semana. Depois disso, temos vários projetos engavetados. Um deles é o Armada, que se passa durante a ditadura militar. Este é forte candidato. Temos também um romance chamado As Coisas Simples da Vida, que por ter um cronograma de produção simples, é uma possibilidade. É aquela velha história de que se não houver prazer de nossa parte em realizar um filme, que prazer as outras pessoas terão ao assisti-lo? Levamos isso ao pé da letra e por isso nos divertimos tanto e conseguimos fazer as coisas sem dinheiro. Ou, pelo menos, sem muito dinheiro.


IM:Aconteceu alguma situação inusitada/engraçada no set de filmagens dos Batedores? Qual ou quais?

FF: Quando não saímos de um set com um “causo” aí que é inusitado. Normalmente os “causos” são adversidades provindas da produção enquanto “independente”. É “Zé da Folha” que pede 100 mangos para parar de tocar por 10 minutos, bêbados inconvenientes que se agregam ao staff da produção, membro da equipe causando prejuízo alheio, acidentes... Mas vale mais citar as situações mágicas: quando um ator se supera ou tem algum insight genial durante um take, quando algo no background compõe de forma natural e inesperada... Pelo menos para mim, isso é o que mais conta; estes momentos em que a câmera está rodando e tiramos o pé do chão por alguns momentos – os elementos conspiram para criar algo antes inimaginável.

Marco Soriano

Marco Soriano interpreta Raul, um batedor de carteiras em apuros, no curta-metragem “os Batedores”. O ator, de Santa Maria, já trabalhou um outras produções da Arquivo-Morto.

 

Insólita Máquina: Tendo em vista que você já atuou em outros curtas da produtora, você se considera ator fetiche da arquivo morto?

Marco Soriano: Não, apenas me sinto muito bem trabalhando com este grupo de pessoas que compõem a Arquivo Morto, e acredito que a recíproca é verdadeira (risos). Pessoas extremamente dedicadas e que fazem do trabalho uma diversão, pois estão realizando seus sonhos e fazendo o que gostam. Todos em prol de um mesmo objetivo: um trabalho bem feito.

IM: Aconteceu alguma situação inusitada no set de filmagens dos Batedores? Qual ou quais?

MS:Muitas!!! Se não houvesse, não seria um trabalho completo(risos)!!! Piadas, erros, sonolências, barulhos inesperados (músicas altas de carros), destruição de parte do cenário, entre outros. Todos eles superados com muito jogo de cintura e descontração para manter o ótimo clima que rodeia este maravilhoso trabalho.

IM: Seu personagem vive em constante adrenalina. Qual o diferencial desta personagem em relação a outros já realizados?

MS: A diferença básica entre eles é a postura adotada ao longo da trama. Raul é um cara inseguro, que se vê diante de vários apuros. Em 5-15, o personagem tem total segurança, domínio e controle do que faz; é extremamente minucioso. Já em Alice, há uma mescla destas diferenças com uma pitada de humor....

IM: E o fato de você ter interpretado um pervertido sexual, como em Alice (2006 -foto), um assassino, em 5-15 (2006), e, agora, um batedor de carteiras? Você se identifica com esse perfil de personagem marginal?

MS: Na verdade me identifico um pouco com todas essas personagens em certos aspectos. Quando há um personagem vilão, ele não é plenamente um vilão, pois chora, ri, sente dor, ciúme, entre muitas outras características comuns entre nós, seres humanos. Por isso acho que sempre há um lado em que nos identificamos, sim. Isso é bom, sinal de que estamos bem vivos e sentindo tudo que podemos, ou seja, as mais variadas emoções.

IM: O que você acha que levou a produtora escolher você para esse tipo de papel?

MS: A produtora talvez tenha me escolhido pelo fato que gosto muito de trabalhar com eles; estou sempre estudando para realizar meu trabalho da melhor forma possível. Além disso, curto muito o que eles produzem e eles sabem que estarei sempre disposto a ajudar no que eu puder.

 IM: Você acha que esses papéis fazem sucesso com as mulheres?

MS: (risos) Acho que os PAPÉIS fazem sucesso não só com as mulheres, mas com todos, pois é sempre maravilhoso ver o mundo fantástico que é o cinema e as artimanhas de seus personagens dentro de ótimos roteiros e direção tais como os trabalhos da Arquivo Morto.

 
Cena de 'Os Batedores': Jack Gerchmann e Cláudio Benevenga."


http://arquivomortobrasil.blogspot.com/

 

 

TOPO



Todos os direitos reservados - www.insolitamaquina.com